Informações para pais e educadores
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Segunda parte do capítulo 10 do livro “Amusing Ourselves to Death”, de Neil Postman. Ele aponta os problemas que surgem quando a televisão passa a ser tida como meio para o aprendizado, através dos programas “educativos”. Segundo Postman, “a principal contribuição da televisão para a filosofia da educação é a idéia de que o ensino e o entretenimento são inseparáveis”. Leia também a primeira parte do texto.

Tradução: Leandro Diniz

Tendo devotado previamente um livro, Teaching as a Conservative Activity [Ensino como uma atividade conservadora], a um exame detalhado da natureza antagonista dos dois currículos – da televisão e da escola – eu não vou sobrecarregar o leitor ou eu mesmo com uma repetição daquela análise. Mas eu gostaria de relembrar dois pontos que eu sinto não ter expressado com a devida força naquele livro, e que acaba por ser central a este. Eu me refiro, primeiramente, ao fato de que a principal contribuição da televisão para a filosofia da educação é a idéia de que o ensino e o entretenimento são inseparáveis. Esta concepção inteiramente original não é encontrada em nenhum discurso sobre educação, de Confúcio a Platão a Cícero a Locke a John Dewey. Ao procurar literatura sobre educação, você achará dito por alguns que as crianças aprenderão melhor quando elas estão interessadas no que a elas é ensinado. Vai achar dito – Platão e Dewey enfatizam isso – que a razão é melhor cultivada quando está enraizada em terreno emocional robusto. Vai até mesmo achar alguns que dizem ser o aprendizado melhor facilitado por um professor benigno e amoroso. Mas ninguém nunca disse ou deixou implícito que o aprendizado significante é efetiva e verdadeiramente alcançado de maneira duradoura quando a educação é entretenimento.

Filósofos da educação têm assumido que tornar-se aculturado é difícil por que isto necessariamente envolve a imposição de restrições. Eles argumentaram que deve existir uma sequência no aprendizado, que a perseverança e uma certa medida de transpiração são indispensáveis, que os prazeres individuais devem ser freqüentemente submetidos aos interesses da coesão do grupo, e que o aprendizado para ser crítico e para pensar conceitualmente e com rigor não vem com facilidade aos jovens, mas são vitórias depois de difíceis lutas. De fato, Cícero sublinhou que o propósito da educação é libertar o estudante da tirania do presente, o que não pode ser prazeroso para aqueles, como os jovens, que estão lutando duramente para fazer o oposto – isto é, acomodar-se ao presente.

A televisão oferece uma deliciosa e, como eu disse, original alternativa a tudo isso. Podemos dizer que existem três mandamentos que formam a filosofia da educação que a televisão oferece. A influência desses mandamentos é observável em todos os tipos de programas televisivos – desde “Vila Sésamo” aos documentários de “Nova” e do “The National Geographic” à “Ilha da Fantasia”, à MTV. Os mandamentos são os que seguem:

Tu não deverás ter nenhum pré-requisito

Todo programa de televisão deve ser um pacote completo em si mesmo. Nenhum conhecimento prévio deve ser exigido. Não deve existir nem mesmo um indício de que o aprendizado é hierárquico, de que é um edifício construído sobre uma fundação. O aprendiz deve ser autorizado a entrar em qualquer ponto sem prejuízo. Isto é por que você nunca ouvirá ou verá um programa de televisão começar com o aviso de que se o espectador não viu o programa anterior, o presente será sem sentido. A televisão é um currículo sem grades e não exclui nenhum espectador por motivo algum, em nenhum tempo. Em outras palavras, abolindo a idéia de sequenciamento e continuidade na educação, a televisão enfraquece a idéia de que sequência e continuidade tem algo a ver com o próprio pensamento.

Tu não deverás induzir à perplexidade

No ensino televisivo, a perplexidade é uma auto estrada para baixas audiências. Um aprendiz perplexo é um aprendiz que mudará para outro canal. Isso significa que não deve existir nada que haja de ser lembrado, estudado, aplicado ou, o pior de tudo, suportado. É assumido que qualquer informação, história ou idéia pode ser imediatamente acessível, desde que o contentamento do aprendiz, e não o seu crescimento, seja supremo.

Tu deverás evitar exposições como as dez pragas caídas sobre o Egito

De todos os inimigos do ensino televisivo, incluindo a continuidade e perplexidade, nenhum é mais formidável que a exposição. Argumentos, hipóteses, discussões, razões, refutações ou quaisquer dos instrumentos tradicionais do discurso racional transformam a televisão em rádio ou, pior, material impresso de terceira qualidade. Então, o ensino televisivo sempre toma a forma de contar histórias, conduzida através de imagens dinâmicas e apoiada por música. Isto é característico tanto de “Jornada nas Estrelas” quanto de “Cosmos,” de “Minha família é uma bagunça [Nickelodeon]”, de “Vila Sésamo,” de comerciais, de “Nova”. Nada será ensinado na televisão que não possa ser igualmente visualizado e colocado em contexto cênico.

O nome que podemos adequadamente dar a uma educação sem pré-requisitos, perplexidade e exposição é entretenimento. E quando alguém considera que salvo o sono não existe nenhuma atividade que ocupe mais o tempo da juventude da América do que assistir televisão, não podemos evitar a conclusão de que uma reorientação gigantesca em relação ao aprendizado está acontecendo.

O que leva ao segundo ponto que quero enfatizar: as conseqüências dessa reorientação estão para serem observadas não somente no declínio da potência das salas de aula, mas, paradoxalmente, em remodelar a sala de aula em um lugar onde tanto o ensino quanto aprendizado são planejados para ser atividades amplamente divertidas.

Eu já me referi ao experimento na Filadélfia no qual a sala de aula é reconstituída como um show de rock. Mas esse é, somente, o exemplo mais tolo de uma tentativa de definir a educação como um modo de entretenimento. Os professores, desde o primário até a universidade, estão aumentando a estimulação visual de suas lições; estão reduzindo a quantidade de exposição com a qual seus alunos têm que lidar; estão confiando menos nas tarefas de leitura e escrita; e estão relutantemente concluindo que o principal meio pelo qual o interesse do estudante pode ser mantido é o entretenimento. Sem nenhuma dificuldade eu posso preencher as próximas páginas desse capítulo com exemplos de esforços de professores – em alguns níveis, inconscientes – para fazer de suas salas de aula programas de televisão de segunda categoria. Mas vou encerrar o meu argumento com “The Voyage of the Mimi” [A Viagem do Mimi], que pode ser tomado como uma síntese, se não uma apoteose, da Nova Educação. “The Voyage of the Mimi” é o nome de um caro projeto científico e matemático que ajuntou algumas das mais prestigiosas instituições no campo da educação – o Departamento de Educação dos Estados Unidos, o Bank Street College of Education, o Public Broadcasting System-PBS [Sistema de Transmissão Pública] e a editora Holt, Rinehart and Winston. O projeto foi possibilitado por uma ajuda de $3,65 milhões do Departamento de Educação, que está sempre alerta para colocar seu dinheiro onde está o futuro. E o futuro é “The Voyage of the Mimi”. Para descrever o projeto sucintamente, eu cito quatro parágrafos do New York Times de 7 de agosto de 1984:

“Organizado em torno de uma série de televisão de vinte e seis episódios que retrata as aventuras de um laboratório flutuante de pesquisas sobre baleias, [o projeto] combina assistir televisão com livros ricamente ilustrados e jogos de computador que simulam o modo com que cientistas e navegadores trabalham… “The Voyage of the Mimi” é feito de programas de televisão de quinze minutos que retratam as aventuras de quatro jovens que acompanham dois cientistas e um capitão marítimo mal-humorado em uma jornada para monitorar o comportamento das baleias jubarte ao lago da costa do Maine. A tripulação do arrastão de atum adaptado navega o barco, rastreia as baleias e luta para sobreviver em uma ilha desabitada depois que uma tempestade danifica o casco do navio… Cada episódio teatral é, então, seguido de um documentário de quinze minutos sobre os temas relacionados. Um de tais documentários envolveu a visita de um dos atores adolescentes a Ted Taylor, um físico nuclear em Greenport, L.I., quem planejou uma maneira de purificar água do mar através do seu congelamento. Os programas de televisão, os quais os professores estão livres para gravar e utilizar a sua conveniência, são suplementados por uma série de livros e exercícios no computador que trabalham com quatro temas acadêmicos que emergem naturalmente do argumento da história: habilidades em mapas e navegação, baleias e seu ambiente, sistemas ecológicos e instrução em computadores.”

Os programas de televisão foram transmitidos através da PBS; os livros e programas de computador foram dados pela Holt, Rinehart and Winston; os especialistas em educação pela faculdade do Bank Street College. Então, “The Voyage of the Mimi” não é para ser desprezado. Como Frank Withrow do Departamento de Educação ressaltou, “Consideramos [o projeto] o carro chefe do que nós fazemos. É um modelo que outros começarão a seguir.” Todo mundo envolvido no projeto está entusiasmado, e extraordinários clamores de seus benefícios vêm seguidamente deles. Janice Trebbi Richards da Holt, Rinehart and Winston afirma, “As pesquisas mostram que o aprendizado aumenta quando a informação é apresentada num contexto dramático, e a televisão pode fazer isso melhor do que qualquer outro meio.” Oficiais do Departamento de Educação afirmam que o recurso de integrar três mídias – televisão, imprensa e computadores – repousa no seu potencial para cultivar habilidades de pensamentos de alta ordem. E Mr. Withrow é citado ao dizer que projetos como “The Voyage of the Mimi” pode significar grandes economias financeiras, que a longo prazo “é mais barato do que qualquer outra coisa que fazemos”. Mr. Withrow também sugeriu que existem muitas maneiras de financiar tais projetos. “Com ‘Vila Sésamo'”, ele disse, “levou cinco ou seis anos, mas eventualmente você pode ter retorno com camisetas e potes de biscoitos.”

(Continua)

Este post traz a tradução da primeira parte do capítulo 10 do livro “Amusing Ourselves to Death”, de Neil Postman. Ele aponta os problemas que surgem quando a televisão passa a ser tida como meio para o aprendizado, através dos programas “educativos”. Segundo Postman, “a principal contribuição da televisão para a filosofia da educação é a idéia de que o ensino e o entretenimento são inseparáveis”.

Bebê assistindo televisão

Tradução: Leandro Diniz

Não poderia haver uma aposta mais segura, quando começou em 1969, de que “Vila Sésamo” seria abraçada pelas crianças, pais e educadores. As crianças o amaram, pois foram educadas com comerciais de televisão, os quais elas intuitivamente sabiam que eram os entretenimentos mais cuidadosamente criados na televisão. Para aquelas que ainda não tinham estado nas escolas, mesmo para aquelas que apenas haviam começado, a idéia de serem ensinadas por uma série de comerciais não parecia peculiar. E que a televisão as devia entreter foi tido como um assunto de fato.

Os pais abraçaram “Vila Sésamo” por diversas razões, entre elas a que diminuía sua culpa sobre o fato de que eles não podiam ou não restringiriam o acesso de suas crianças à televisão. “Vila Sésamo” apareceu para justificar as crianças de quatro ou cinco anos de idade ficarem sentadas transfixadas em frente à tela de uma tevê por períodos de tempo impensáveis. Os pais estavam ansiosos pela esperança de que a televisão pudesse ensinar a suas crianças algo além de qual cereal de café da manhã era o mais crocante. Ao mesmo tempo, “Vila Sésamo” os liberou da responsabilidade de ensinar às suas crianças em idade pré-escolar a ler – um assunto de importância em uma cultura onde as crianças estão aptas a serem consideradas um incômodo.

Eles também puderam ver claramente que apesar de suas falhas, “Vila Sésamo” era inteiramente consonante com o espírito que prevalecia na América. Seu uso de fantoches engraçados, celebridades, músicas cativantes, e edição rápida era certamente para dar prazer às crianças e, portanto, servia como uma preparação adequada para sua entrada em uma cultura do amor à diversão.

Quanto aos educadores, eles em geral também aprovaram “Vila Sésamo”. Contrário à opinião comum, eles estavam inclinados a achar os novos métodos agradáveis, especialmente quando estavam convencidos de que a educação pode ser alcançada mais eficientemente através das novas técnicas. (E é por isso que tais idéias como o “livro didático à prova de professor”, testes padronizados, e, agora, micro-computadores, têm sido bem vindos às salas de aula). “Villa Sésamo” pareceu ser uma ajuda imaginativa em resolver o problema crescente de ensinar aos americanos como ler, enquanto, ao mesmo tempo, encorajar as crianças a amarem a escola.

Sabemos agora que “Villa Sésamo” incentiva as crianças a amarem a escola somente se a escola se parecer com “Villa Sésamo”. Ou seja, sabemos agora que “Vila Sésamo” enfraquece o que a idéia tradicional de escola representa.

Enquanto a sala de aula é um local de interação social, o espaço defronte a televisão é uma reserva particular. Enquanto em uma sala de aula alguém pode fazer perguntas ao professor, não pode perguntar nada para uma tela de tevê. Enquanto a escola é centrada no desenvolvimento da linguagem, a televisão demanda atenção à imagens. Enquanto a freqüência à escola é um requerimento legal, assistir televisão é um ato de escolha. Enquanto na escola alguém falha em atender ao professor sob o risco de punição, não existem penalidades em se falhar em assistir à televisão. Enquanto o bom comportamento de alguém na escola significa observar regras de decoro público, assistir televisão não requer tais observâncias, não existe esse conceito de decoro público. Enquanto em uma classe a diversão nunca é mais que um meio para um fim, na televisão ela é o fim em si mesma.

Porém “Villa Sésamo” e seu descendente, “The Eletric Company”, não podem ser culpados por ridicularizar a clássica sala de aula. Se a sala de aula agora começa a parecer um ambiente velho e chato para aprender, podemos culpar os inventores da própria televisão, e não o Children’s Television Workshop. Não podemos esperar a preocupação com a finalidade de uma sala de aula daqueles que querem fazer bons shows para a televisão. Eles estão preocupados com a finalidade da televisão.

Isso não significa que “Vila Sésamo” não é educativa. Ela é, de fato, nada menos do que educativa – no sentido de que todo programa de televisão é educativo. Assim como ler um livro – qualquer tipo de livro – promove uma orientação particular em direção ao aprendizado, assistir um programa de televisão faz o mesmo. “The little house on the prairie”, “Cheers” e “The Tonight Show” são tão efetivos quanto “Vila Sésamo” ao promover o que pode ser chamado de estilo televisivo de aprendizado. E esse estilo de aprendizado é, por sua própria natureza, hostil ao que tem sido chamado de aprendizado por leitura ou seu aprendizado escolar pessoalmente assistido.

Se vamos culpar “Vila Sésamo” de algo, é por sua pretensão de ser uma aliada da sala de aula. Afinal de contas, isso tem sido o carro chefe para arrecadar fundos e dinheiro público. Como um programa de televisão, e um ótimo programa, “Vila Sésamo” não encoraja as crianças a amarem a escola ou qualquer coisa da escola. Ele as encoraja a amar a televisão.

Além disso, é importante adicionar que se “Vila Sésamo” ensina as crianças as letras e números ou não, é algo totalmente irrelevante. Podemos ter aqui como nosso guia as observações de John Dewey de que o conteúdo de uma lição é a última coisa, a menos importante, no aprendizado. Como ele escreveu em Experiência e Educação: “Talvez a maior falácia pedagógica de todas é a noção de que uma pessoa aprende somente o que ela está estudando no momento. O aprendizado colateral no caminho da formação de atitudes duradouras… pode ser, e geralmente é, mais importante do que a lição de ortografia ou uma lição de geografia ou história… Pois tais atitudes são o que fundamentalmente contam no futuro.”

Em outras palavras, a coisa mais importante que alguém aprende é sempre algo sobre como alguém aprende. Como Dewey escreveu em outro lugar, nós aprendemos o que fazemos. A televisão educa ao ensinar as crianças a fazer o que o ato de assistir televisão requer delas. E isso é precisamente distante do que uma sala de aula requer delas assim como ler um livro é de assistir a um programa de auditório.

Embora alguém não seja capaz de saber isso ao consultar as várias propostas de como endireitar o sistema de educação, este ponto – de que ler livros e assistir televisão diferem completamente no que eles implicam sobre o aprendizado – é hoje o problema educacional mais importante na América. América é, de fato, o caso exemplar ao evidenciar o que pode ser pensado como a terceira grande crise da educação Ocidental.

A primeira ocorreu no quinto século A.C., quando em Atenas teve lugar uma mudança de uma cultura oral para uma cultura de alfabeto e escrita. Para entender o que isso significou, devemos ler Platão. A segunda ocorreu no século dezesseis, quando na Europa aconteceu uma transformação radical como resultado da prensa móvel. Para entender o que isso significou, devemos ler John Locke. A terceira está ocorrendo agora, na América, como resultado da revolução eletrônica, particularmente a invenção da televisão. Para entender o que isso significa, devemos ler Marshall McLuhan.

Encaramos a rápida dissolução dos pressupostos de uma educação organizada ao redor do lento e em movimento mundo da impressão e a igualmente rápida emergência de uma nova educação, baseada na imagem eletrônica à velocidade da luz. A sala de aula ainda está, no momento, atada ao mundo da impressão, embora essa conexão esteja rapidamente enfraquecendo. Enquanto isso, a televisão avança, sem fazer concessões ao seu grande predecessor tecnológico, criando novas concepções do conhecimento e de como ele é obtido. Uma pessoa é inteiramente justificada em dizer que a maior iniciativa educacional que está agora sendo empreendida nos Estados Unidos não está acontecendo nas salas de aulas, mas nas casas, em frente às televisões, e sob a jurisdição não dos administradores das escolas e dos professores, mas dos executivos das cadeias de tevê e dos apresentadores.

Eu não quero dizer que a situação é um resultado de uma conspiração ou mesmo que aqueles que controlam a televisão assumem essa responsabilidade. Eu só quero dizer que, assim como o alfabeto ou a imprensa, a televisão tem pelo seu poder de controlar o tempo, atenção e hábitos cognitivos da nossa juventude, o poder de controlar a educação deles.

E é por isso, eu penso, que é adequado chamar a televisão de currículo. Como eu compreendo a palavra, um currículo é um sistema de informações especialmente estruturado, cujo propósito é influenciar, ensinar, treinar ou cultivar a mente e o caráter da juventude. A televisão, de fato, faz exatamente isso, e o faz incansavelmente. Fazendo assim ela compete, com sucesso, com o currículo escolar. Pelo que eu quero dizer, ela praticamente o elimina.

(Continua)

O hábito da leitura na infância

31 de Janeiro de 2013 | Publicado por Mariana em Mensagem da Semana - (0 Comentário)

O hábito da leitura está despertando cedo. Os pequeninos ouvem as histórias que lhes são lidas. Analfabetos embora, conhecem os livros pelas ilustrações, folheiam-nos, convivem com êles. Aí começaremos a ensinar-lhes cuidado, respeito e amor aos livros.

Sabendo ler, lêem com prazer aquelas mesmas histórias que ouviram contar. Ou querem ler outras. Surge-nos a preocupação da escolha dos livros: escolha em todo sentido: moral, psicológico, artístico, etc. Pais cuidadosos nunca entregarão ao filho um livro que antes não leram. E farão da leitura infantil um instrumento de educação, sob qualquer dos seus numerosos ângulos.

A educação dos filhos – Mons. Álvaro Negromonte

Menino lendo

Abordando os vários estilos de aprendizagem

(Original no blog da Calvert School)

Tradução: Mariana Discacciati Pazzini

Como um homeschooler, você provavelmente já sabe que existem vários estilos de aprendizagem diferentes. Todas as pessoas têm seu método de aprendizagem preferido. Se você é novo no homeschooling ou adepto há mais tempo, uma breve revisão sobre os estilos de aprendizagem poderá ser benéfica.

Em Educação é consenso o reconhecimento de três estilos de aprendizagem distintos. São eles os estudantes visuais, os auditivos e os sinestésicos. Isso pode soar como rótulos extravagantes, mas são apenas maneiras diferentes de aprendizagem.

A maioria das pessoas trabalha melhor com um estilo de aprendizagem, mas poderá descobrir que pode se destacar em outras áreas. Isso faz com que seja importante abordar todos os estilos de aprendizagem com todos os estudantes, focando mais no estilo no qual eles se adaptam melhor. É também importante lembrar que seu filho pode não compartilhar o mesmo estilo de aprendizagem dominante que você.

Aluno visual

Alunos visuais aprendem através da visão. Aprendem através de leitura de texto, imagens, gráficos, diagramas, etc. Se seu filho é um aluno visual, você deve fornecer material de leitura, usar a linguagem corporal ao ensinar, e instruí-lo sobre como tomar notas. Use instruções escritas, ao invés de orais, e mantenha os ruídos de fundo reduzidos. Lembre-se que eles memorizam usando pistas visuais, portanto podem preferir escrever algo mesmo em tarefas orais. Alunos visuais tendem a recordar melhor as informações se eles as leem silenciosamente para si mesmos antes de lerem em voz alta ou discutirem. Pode ser benéfico fornecer ao aluno visual um resumo geral do material que será abrangido numa discussão ou leitura. Usar mapas conceituais também ajuda a criar conexões sobre o material.

Aluno auditivo

Essas são as crianças que irão se beneficiar lendo um texto em voz alta, ouvindo uma história gravada em áudio, ou participando de uma discussão. Para o seu aluno auditivo você deve considerar usar histórias online com áudio gravado, audiobooks, ou fazer um revezamento nas leituras em voz alta. Alunos auditivos funcionam bem com música instrumental tocando ao fundo enquanto estudam. Pode ser proveitoso para o seu aluno auditivo usar o dedo ou algo para apontar durante a leitura, a fim de evitar pular linhas. O aluno auditivo também se beneficia repetindo as instruções recebidas, realizando avaliações orais, e usando associação de palavras para relembrar um conteúdo.

Aluno sinestésico

Alunos sinestésicos aprendem melhor através de uma abordagem “mão na massa”. Eles aprendem movendo, tocando e fazendo. Se seu filho é um aluno sinestésico, você deve considerar aulas de campo, experimentos de laboratório, e usar técnicas de memorização que envolvam gestos. Alunos sinestésicos precisam trabalhar em curtos períodos de tempo e fazer pausas frequentes enquanto estiverem estudando. Eles tendem a precisar de espaço para ler ou escrever, como deitar no chão ou na cama, ao invés de se sentar em uma mesa. Alunos sinestésicos tendem a preferir livros que tragam orientações de ações/tarefas. Para encorajar seu aluno sinestésico, permita o uso de modelos, projetos, ou demonstrações, ao invés do tradicional relatório escrito.

Descobrir o estilo de aprendizagem do seu filho irá beneficiar não só ele, mas também você, o pai ou mãe que educa em casa. Ter esse conhecimento irá te ajudar a determinar qual o estilo de aprendizagem se enquadra melhor e como incorporar esse estilo no currículo Calvert do seu aluno. O mais importante, porém, é que saber como seu filho aprende irá promover nele confiança e uma vida de amor ao aprendizado.

Há algum tempo postei aqui no blog um vídeo com dicas da professora Margarita Noyes sobre como começar a ensinar Matemática para crianças bem novinhas (mais ou menos na época em que começam a andar). O vídeo abaixo é uma continuação desse primeiro: desta vez a Margarita dá preciosas dicas de como ensinar os principais conceitos matemáticos para crianças um pouco mais velhas, em idade pré-escolar (entre 4 e 6 anos). Assistam e vejam abaixo os links para os materiais e recursos indicados no vídeo.

Site do Math-U-See

Cuisenaire Rods:

menina tentando se lembrar

Estava esta semana revendo algumas partes do livro “Eficiência sem Fadiga” e achei interessante compartilhar alguns trechos do capítulo sobre memória, visto que já enfatizei aqui no blog a importância de se trabalhar a memorização na infância. Narciso Irala não fala propriamente da atividade de memorização, mas da necessidade de se cultivar uma boa memória tanto para a vida no geral quanto para os estudos. Para isto ele ensina alguns métodos que acredito que todos os pais e professores deveriam tomar conhecimento e tentar aplicar com seus filhos e alunos. São os seguintes:

1)      Aumentar o interesse, a decisão e a confiança:

“Grava-se e recorda-se melhor o que atraiu mais a atenção. O que é novo, insólito, extraordinário, o que oferece contraste, atrai nossa atenção, e o que muito de perto nos toca chega a no-la arrebatar com violência. Por isto, quando viajamos, lembramo-nos melhor das primeiras experiências, porque nos impressionam mais. Pelo mesmo motivo as emoções fortes da infância tendem a permanecer”.

2)      Receber com melhor concentração:

“Não se grava bem o que estudamos com desânimo, má vontade, em meio a distrações, ou assaltados por ideias parasitas; também não se grava perfeitamente aquilo que apenas ocupou a periferia da atenção, sem entrar no foco central da mesma. (…) Atender por metade é gravar por metade. Nossa mente é como uma máquina fotográfica: não pode enfocar ao mesmo tempo dois objetos bem separados ou em diferentes planos. Se você está atendendo à sua leitura e vêm dizer-lhe o nome ou endereço que você queria, não o reterá, a não ser que deixe por um momento de enfocar o livro e se concentre no que lhe dizem.”

3)      Receber através de mais vias sensoriais:

“Se além de ouvirmos, vemos; se falamos ou escrevemos; se tocamos ou saboreamos; se tomamos parte ativa na conversa, então a gravação de qualquer coisa ou idéia será mais perfeita e profunda. Nisto se baseia o fundamento pedagógico dos meios áudio-visuais no ensino. O que entra por vários sentidos, entra sob mais variados aspectos, isto é, com maior distinção e clareza e fica mais ligado à nossa recordação. (…)

Poucos terão conseguido um êxito pedagógico tão completo como o célebre P. Manjón com suas famosas escolas da Ave Maria. Usou magistralmente este método. Os meninos vagabundos ou abandonados recolhidos por êle em Granada aprendem vendo, ouvindo ou brincando. Para a geografia, por exemplo, mandou fazer para eles no pátio um grande mapa da Espanha em relevo. O professor, sobre o mapa, faz excursões às serras que o rodeiam ou às cidades e províncias mais próximas, ou, descendo o rio, chega até o mar e vai descrevendo o que encontra. Outro dia um aluno faz uma viagem por mar, tocando nos portos que o professor indica. A história é ensinada teatralmente, representando cada aluno o papel de um personagem histórico. A aula é uma diversão para os alunos e após algumas semanas já se familiarizaram com a matéria.”

4)      Receber através do sentido predominante:

“Alguns têm memória predominantemente visual, ou por outra, quando pensam ou se recordam, fazem-no através de imagens visuais; estão como que vendo o que pensam. Estes retêm sobretudo o que vêem ou lêem ou o que associaram com alguma coisa que viram; lembram-se da página onde leram tal ou tal frase e do lugar que ela ocupava na página. É conveniente que os que pertencem a este tipo utilizem sempre os mesmos livros ou apontamentos, visualizando e localizando o que desejam reter. (…)

Outros, especialmente os músicos, têm memória predominantemente auditiva, lembram-se sobretudo do que ouviram ou leram em voz alta.”

5)      Elaborar com mais enfoques e relações:

“(…) ao lermos, escutarmos ou observarmos algo novo vamos rotulando-o, a saber, vamos relacionando-o com o que já sabíamos e que pode esclarecer, confirmar ou destruir o novo conhecimento, então sim, ele ficará gravado em nossa memória. Por outra parte, gravar-se-á essa ideia quando anotamos a posição que ela ocupa com relação às que a precederam ou lhe sucederam; quando percebemos que é causa ou efeito da anterior, ou parte integrante de um todo interessante; quando a enfocamos sob vários aspectos e a relacionamos com o nosso ideal (…).

A relação sistemática mais natural e que ajuda muito a memória é a que classifica ou associa coisas semelhantes. O botânico sabe tanto do reino vegetal porque classificou por gêneros e espécies todas as plantas de que tem notícia. O zoólogo pode falar com interesse e erudição de tão variados animais porque os classificou e estudou por espécies e famílias. (…)

Outra maneira de organizar as idéias e de utilizar vários sentidos é procurar exprimi-las. As idéias na mente, sem palavras que as expressem, são como um túnel cavado na areia. A expressão da idéia por palavra ou por escrito será a pedra ou cimento que consolidará o trabalho realizado.”

6)      Repetir sem se aborrecer e antes de esquecer:

“Todos os meios anteriores serão insuficientes sem a repetição; com ela é que eles adquirem sua maior eficácia, pois a repetição é o ‘buril da memória’. (…)

Para se poder lembrar a longo prazo, a necessidade das repetições é de experiência universal. Todos repetimos com insistência o que queremos decorar. Tornamos a olhar a paisagem, o quadro, o detalhe que gostaríamos de conservar na memória.”

7)      Recitar no tempo devido:

“Recitar e procurar reproduzir, para si mesmo ou para outro, o que se leu, sem olhar no livro. É uma espécie de repetição ou um modo de tomarmos a nós mesmos a lição, o qual ajuda a memória.”

8)      O todo ou a parte?

“Antes de mais nada, deve-se procurar evitar o desânimo, o qual nos levaria ao fracasso. O desânimo poderia surgir dado que, quando a lição é demasiado longa, será impossível dominá-la de uma vez. Portanto, será conveniente adquirir primeiro certo conhecimento, embora imperfeito, de toda a matéria, para depois atacar as partes uma a uma, relacionando-as entre si e com o todo.

Quando a tarefa é curta, é preciso optar sempre por estudá-la toda de uma vez.”