Informações para pais e educadores
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Brincando de ser adulto

26 de novembro de 2011 | Publicado por Mariana em Mensagem da Semana - (0 Comentário)

Com muita frequência, a única maneira de adquirir uma qualidade consiste em comportar-se como se já a tivesse. É por isso que as brincadeiras infantis são tão importantes. As crianças fingem ser adultos – brincando de soldado e de dona-de-casa. Estão sempre retesando os músculos e afiando a inteligência, de modo que, fingindo ser adultos, acabam tornando-se adultos de verdade.

Cristianismo Puro e Simples – C. S. Lewis

Latim + Matemática

21 de novembro de 2011 | Publicado por Mariana em Matemática - (0 Comentário)

Nesse artigo são apontadas as semelhanças e diferenças entre a Matemática e o Latim. Ambos são mais importantes do que matérias como Geografia ou Ciências, pois desenvolvem o poder intelectual da mente, na medida em que conhecimentos são inter-relacionados e habilidades são adquiridas gradativamente. Embora o foco deste blog seja a educação na primeira infância (o Latim não deveria ser ensinado antes dos 8 anos, pelo menos), creio que esse artigo possa ser bastante útil para que os pais avaliem o impacto positivo que o ensino deste idioma e da Matemática pode ter na educação de uma criança. 

Latim + Matemática – por Cheryl Lowe

(original no site Memoria Press)

Tradução: Mariana Discacciati

Revisão da tradução: Raquel Borges

Muitos dos que são atraídos pela idéia de uma educação clássica não sabem exatamente o porquê, nem compreendem a necessidade do Latim, ou pelo menos essa quantidade toda dele. Um pouco de Latim é uma boa coisa, mas todos os anos? Espinafre é uma boa coisa, mas todos os dias?

Acredito que cinco décadas de modismos e experimentos deixaram os pais cautelosos, e quando eles escutam sobre educação clássica, eles pensam, “Sim, é isso o que eu quero”. Parte do apelo da educação clássica é simplesmente a palavra “clássica”.

Clássico é uma palavra que possui associações interessantes: algo que resistiu ao teste do tempo, o melhor, algo com forma, estrutura e beleza, como uma sinfonia ou arquitetura clássica. Quando colocamos dessa maneira, todos os pais querem uma educação clássica; eles querem o melhor, a educação que foi testada pelo tempo, a educação que tem forma e estrutura, disciplina e beleza. Parece bom para os pais que estão cansados das últimas inovações que nunca parecem funcionar.

Mas o que é educação clássica? Para ser precisa, e precisamos ser, iremos usar o significado histórico. Esse entendimento sobre educação clássica pode certamente ser atualizado, mas não pode ser radicalmente alterado. Na educação clássica, o principal foco no estudo da linguagem é uma língua clássica, e o foco primário em história são as civilizações clássicas da Grécia e de Roma. Existem duas e apenas duas línguas clássicas – Latim e Grego – e eu irei restringir meus comentários ao Latim.

Por que estudar velhos e mortos idiomas e civilizações? Em primeiro lugar, o Latim não está morto. Ele é ainda lido por milhões de pessoas em todas as nações, e a maioria dos clássicos em Latim ainda são impressos, e muitos livros novos, como How the Grinch Stole Christmas e Ursinho Puff (Winnie the Pooh), foram traduzidos para o Latim. Existem muitas línguas mortas e que estão morrendo nesse mundo, mas não há mais influentes idiomas na história que o Latim e o Grego. É verdade que eles não são utilizados para a conversa do dia a dia, mas é completamente falso caracterizar o Latim e o Grego como línguas mortas. Elas não estão mortas – elas são verdadeiramente imortais.

Sim, o Latim ajuda na pontuação do SAT[1]. Ele faz sim a aprendizagem de um idioma moderno mais fácil. É verdade, o Latim é abundante nos vocabulários técnicos das ciências humanas e tecnológicas e do Direito. Um estudante de Latim deveria também ganhar um firme domínio do vocabulário Inglês[2] por reconhecer que todas as grandes palavras vieram do Latim.  Embora esses benefícios sejam impressionantes, eles são pequenos se comparados ao real valor do Latim. Existem objetivos mais importantes que o Latim realiza melhor do que qualquer outra disciplina: o primeiro é o desenvolvimento mental, e o segundo são as habilidades lingüísticas em Inglês.

O Latim desenvolve o poder intelectual da mente como nenhuma outra matéria. Pense no preparo físico, um estudante que é um atleta versus outro que é sedentário. A mente pode ser desenvolvida como o corpo. Como o Latim faz isso? A melhor maneira de compreender o poder do Latim é considerar algo com o qual você provavelmente esteja familiarizado – Matemática.

A Matemática é sistemática, organizada, ordenada, lógica e cumulativa. Num estudo cumulativo, cada habilidade é construída sobre a anterior, nada pode ser esquecido, tudo precisa ser lembrado. Todos os conhecimentos e habilidades estão inter-relacionados. O estudante continua a construir uma torre de conhecimento bloco por bloco, até que alcance um alto nível de habilidades e conhecimento.

Matemática começa com memorização, computação, frações, decimais, porcentagens, problemas com palavras e procede a solução de problemas, álgebra, geometria, trigonometria e cálculo. Matemática é difícil porque se constrói tão incansavelmente ano após ano através de cada ano da educação da criança. Qualquer habilidade que não tenha sido dominada em um ano vai tornar o trabalho difícil no ano seguinte.  A Matemática é implacável. Ela precisa ser cultivada. É por isso que poucos estudantes alcançam um alto nível em Matemática. Eles atingem um teto de vidro porque a natureza cumulativa da matéria os alcança. Por fim, eles se encontram em uma situação que está além de suas capacidades e desistem.

Como a Matemática desenvolve o poder intelectual da mente? A Matemática forma a mente do estudante para a precisão, pensamento lógico, e resolução de problemas. É formação, não informação. A Matemática realmente educa, transforma, e modifica a mente do estudante para se tornar como a Matemática – ordenada, lógica, precisa, organizada. O verdadeiro propósito da educação e de todas as matérias que estudamos na escola é desenvolver, moldar, e transformar a mente e o caráter do estudante. A natureza da disciplina transfere seu caráter para a mente do estudante.

O que há de especial na Matemática? Matemática é uma linguagem, e uma linguagem não é realmente uma matéria. É algo muito mais básico e fundamental que uma matéria. Astronomia é uma matéria. A Guerra Civil é uma matéria. Ciência, História, Literatura, Governo e Sociologia são matérias. Matérias são por natureza tópicas. Sim, há o básico para qualquer matéria, e, idealmente, ele é ensinado da forma mais cumulativa possível. Se um estudante não vai bem em História Mundial em um ano, ele pode entender e ir bem no ano seguinte em História Americana.  Se ele se distrai durante as explicações sobre a estrutura da célula, ele pode acordar e conseguir um “A” em sistema de classificação das plantas. Se ele não entende Hamlet, ele pode se sintonizar para Macbeth. Matérias não são tão exigentes quanto idiomas e, portanto, não irão produzir um estudante do mesmo calibre.

O que temos do lado da linguagem no currículo que seja comparável e que balanceie o rigoroso, desafiador, cumulativo e formativo estudo da Matemática? Sem o Latim, a resposta é “Nada”.

Matemática é importante, mas é secundária às habilidades lingüísticas. Na verdade, a Matemática é dependente das habilidades lingüísticas. O professor de Matemática ensina os conceitos em palavras, e os símbolos matemáticos são usados no lugar de palavras para que possam ser facilmente manipulados no papel. Uma pessoa realmente culta pode ser bastante ruim em Matemática, porque as habilidades lingüísticas ainda são a medida para uma pessoa culta: aquela que consegue falar e escrever com clareza e tem poder sobre sua língua mãe, o Inglês.

O Latim fornece o componente faltante na educação moderna, o treinamento sistemático da linguagem comparável a e que equilibra o lado da Matemática no currículo. Quase tudo o que eu disse sobre Matemática, você poderia ter substituído por Latim, mas não por Inglês, Ciência, História ou Francês.

Nós iremos continuar essa conversa com o foco em Latim na próxima edição do The Classical Teacher.


[1]  O SAT (Scholastic Assessment Test) é um exame aplicado aos estudantes do Ensino Médio nos Estados Unidos, que serve como critério para admissão nas universidades norte-americanas.

[2] O mesmo se aplica para o Português.

Nesta entrevista, Fernando César Capovilla (professor de Neuropsicologia da USP e especialista em distúrbios da comunicação e da linguagem) fala sobre a superioridade do método fônico de alfabetização em relação ao ideovisual, sobre a baixa qualidade do ensino brasileiro e sobre por que o Brasil continua a adotar o método ideovisual, apesar dos resultados das pesquisas internacionais confirmarem a eficácia do método fônico. 


Fotografia de crianças escrevendo

Folha Dirigida — Como o sr. avalia nossos alfabetizadores?

Fernando César Capovilla — São pessoas dedicadas e que querem fazer um bom trabalho. No entanto, são impedidas de fazê-lo porque os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s) do Ministério da Educação (MEC) estão completamente errados. Quando comparamos os PCN’s brasileiros com os britânicos, finlandeses, franceses ou americanos notamos uma disparidade extraordinária. Eles dizem para não fazer o que o Brasil faz. Existem dois métodos para alfabetização: o ideovisual e o fônico. O mundo inteiro, que usa a escrita alfabética, usa o método fônico porque uma revisão da literatura, de 115 mil estudos científicos publicados, provou que o método fônico é superior ao ideovisual, que continua sendo usado no Brasil e no México.

Folha Dirigida — O que é exatamente o método ideovisual? E o fônico? Qual a diferença entre eles?

Capovilla — No ideovisual o professor dá o texto para o aluno. O MEC recomenda, por meio dos seus PCN’s, que se dê o texto à criança (um texto, como eles dizem, complexo, rico), e afirma ainda que não há necessidade de ensinar a criança a converter letras em sons e sons em letras. Diz também que o professor deve aceitar tudo o que a criança escreve como uma produção legítima. O professor não pode ensinar, corrigir, treinar ou guiar a criança ao longo do processo. O MEC acredita que a criança aprende praticamente sozinha, que basta ter livros no entorno que ela vai aprender a ler e escrever, e isso é falso. O mundo inteiro descobriu, por meio de atividades científicas, que ler e escrever são atividades complexas que requerem um treinamento específico. São necessárias instruções sobre a relação entre as letras e os sons para que a criança possa codificar fonografenicamente (a partir da fala escrever) e decodificar grafonemicamente (a partir da palavra decodificar o texto e produzir fala). O método fônico evoca a fala, a mesma fala com a qual a criança pensa e se comunica. Por isso é um método muito natural.

Folha Dirigida — O Brasil sempre utilizou este método?

Capovilla — Antes a alfabetização era feita pelo método silábico. A partir dos anos 80, com o Construtivismo, foi introduzido o método ideovisual que produziu péssimos efeitos. O Brasil é recordista mundial de incompetência de leitura. O México está em segundo lugar e tanto um quanto outro seguem Emília Ferrero (psicopedagoga argentina), ou seja, o Construtivismo. O mundo inteiro deixou isso como sendo um mito, como sendo pernicioso para a criança. Pelos resultados se conhece o método. Quais são os resultados do método ideovisual empregado no Brasil? Incompetência. Por isso somos recordistas mundiais em incompetência.

Folha Dirigida — O método de alfabetização utilizado no Brasil está ultrapassado?

Capovilla — Ultrapassado, desacreditado e condenado pela França, Dinamarca, Itália, Suécia, Finlândia, Canadá, pelo mundo.

Folha Dirigida — O sr. poderia apontar diferenças entre os alfabetizadores brasileiros e os estrangeiros?

Capovilla — Os alfabetizadores dos países que investem em pesquisa científica para descobrir como melhor alfabetizar são formados para respeitar as etapas de desenvolvimento da linguagem da criança. Começam do simples para o complexo. O Brasil faz o oposto, começa do complexo. O MEC diz: dê um texto rico para a criança, um texto complexo. Isto é ridículo, é criminoso. O Ministério Público devia investigar o que acontece na educação desse país. Por isso que agora a Câmara dos Deputados vai começar a examinar a educação brasileira à luz do conhecimento científico internacional. O Brasil trata suas crianças como se elas fossem marcianas e, depois, elas são taxadas de incompetentes. Será que somos tão inferiores? Uma subraça? Não. A educação é que é inapropriada.

Folha Dirigida — Uma das críticas que se faz é que os jovens não sabem interpretar. Isto seria conseqüência do modelo de nossa alfabetização?

Capovilla — Exatamente. Quando se usa o método fônico se melhora a compreensão do texto. No método ideovisual, onde o professor dá logo o texto, o que acontece é que a criança tende a memorizar as palavras. Porém, o código alfabético não se presta à memorização fácil porque as letras são muito parecidas. Com isso, o que acontece é que a criança troca as palavras quando lê (paralexia) e troca palavras na escrita (paragrafia). Esses erros ocorrem porque o alfabeto não se presta à memorização visual. Ele tem que ser decodificado. Ele foi inventado pelos Fenícios para mapear sons da fala, por isso é eficiente. Se você sabe decodificar não precisa memorizar.

Folha Dirigida — Para introduzir este método seria necessário mudar a formação do professor?

Capovilla — Sim, mas isto é fácil. Quem opta por ser alfabetizador o faz por amor, por idealismo. Uma pessoa idealista é a primeira a se apaixonar pelo seu trabalho quando ele funciona. O método fônico produz resultados extraordinários. Em três meses uma criança está lendo o que não lia em dois anos sob o método ideovisual. As professoras que empregam o método fônico ficam maravilhadas com sua eficácia.

Folha Dirigida — É certo que quando o professor vê um resultado positivo ele se anima. Mas os docentes costumam apresentar resistências a mudanças…

Capovilla — Isto é humano. Mas quando eles experimentam a mudança, se ela for boa, acabam convencidos da importância de mudar.

Folha Dirigida — Há experiência no Brasil de alfabetização pelo método fônico?

Capovilla — Já temos pelo menos 40 escolas, em diversos estados, empregando o método no Brasil. Isto porque as escolas particulares, sensíveis à matrícula, se sentem pressionadas pelos pais que ameaçam cancelar o registro dos seus filhos se elas não produzirem bons resultados. Isto está acontecendo em São Paulo e certamente acontece no Rio. As escolas cujos egressos não passam para universidade pública gratuita são questionadas pelos pais. Preocupadas, algumas escolas perceberam que pelo método ideovisual as contradições e problemas se acumulavam ao longo das séries. Em São Paulo, as escolas que empregavam o Construtivismo viam os seus alunos irem para as universidades pagas. Pressionadas pelos pais começaram a procurar eficiência e descobriram no método fônico o caminho.

Folha Dirigida — O sr. disse que o professor tem que ensinar, tem que avaliar. Como o sr. vê a aprovação automática?

Capovilla — Isto está completamente errado. O objetivo dessa política é melhorar o fluxo, diminuir a disparidade entre a idade e a série escolar. Pelo Brasil existem 8 milhões de crianças fora da série. Isto é resultado de evasão ou repetência, ou seja, fracasso escolar. Nos dois casos isto ocorre porque a escola não está ensinando. Se passarmos a ensinar com eficiência, as crianças aprenderão e serão aprovadas sem precisar de progressão continuada ou do sistema de ciclos. O sistema de ciclos é ruim porque, se a criança não aprende, isto só será percebido daqui a dois, três, quatro anos. Então está se perdendo o que é mais precioso para o desenvolvimento humano, que é tempo. A janela de desenvolvimento da linguagem é até 6 anos, e desperdiçar este tempo prejudica fortemente a criança. Da mesma forma a alfabetização. Se ela não for feita na idade apropriada, que é 6, 7 anos, até 8 anos, na pior das hipóteses, ela vai ser feita num custo muito maior e com resultados muito menores. O método ideovisual não ensina, ele queima o tempo da criança.

Folha Dirigida — O sr. diz que para aprender é necessário decodificar. O que é decodificar?

Capovilla — É converter os grafemas em fonemas. Aprender a pronunciar a palavra em presença da escrita. Quando pensamos em palavras usamos nossa voz interna. Quando lemos em voz baixa escutamos nossa voz. Isto é o processo fônico: a invocação da fala interna em presença do texto. O método ideovisual desestimula esta fala interna. Ele tenta estimular a leitura visual direta, portanto, a memorização. Só que não é possível memorizar ideograficamente todas essas palavras. A forma correta é aprender a decodificar. Quando fazemos isso, naturalmente se consegue produzir a fala e entender o que se está lendo.

Folha Dirigida — Como o sr. avalia a qualidade da nossa educação?

Capovilla — A educação brasileira é a pior do mundo.

Folha Dirigida — Na sua visão, este resultado negativo tem relação com nosso processo de alfabetização?

Capovilla — Eu não acho, eu sei que sim! Pesquisas mostram isso, não é questão de discussão. Nos Estados Unidos houve a guerra de leitura. De um lado os cientistas que defendiam o método fônico e, do outro, os pedagogos que defendiam o ideovisual. O governo, consciente da importância da educação – sabia que era importante formar bem as crianças e jovens americanos para continuar à frente dos outros países – e dividido na briga entre cientistas e pedagogos, resolveu chamar um painel de especialistas para analisar 115 mil artigos comparando os dois métodos. Eles descobriram que o fônico era infinitamente mais eficiente do que o ideovisual.

Folha Dirigida — Se este método é tão superior e seus resultados positivos amplamente conhecidos, por que o MEC ainda não os usa?

Capovilla — É fácil entender isso. Os anos 80 foram anos de contestação ao governo militar. As esquerdas começaram a arregimentar as massas. Tanto que, hoje, temos um líder operário como presidente. No Brasil, houve uma reação muito forte aos governos militares. Foram anos de espontaneismo, de liberdade civil. Mas as pessoas acabaram confundindo as coisas. Confundiram ensino sistemático com ensino militarizado, clareza conceitual e especificação de currículo, de objetivos, de competências da criança com autoritarismo. Dessa forma, acharam que deixando a criança sozinha ela iria se desenvolver maravilhosamente. “O bom selvagem”, de Rousseau. É uma visão romântica maravilhosa, mas se o objetivo é tornar a criança competente, pesquisas mostram que este modelo não funciona. A própria Emília Ferrero, a ideóloga desta teoria construtivista que ainda domina o Brasil com garras de aço que nos levam à incompetência, nos seus estudos em psicogêneses da língua escrita constatou uma diferença entre crianças pobres e ricas no seu método. As crianças ricas chegavam ao nível 5, 6 de aprendizagem. As pobres paravam no nível 3. E olha que as crianças pobres de Emília Ferrero eram as nossas crianças de classe média. O melhor método é o que permite às crianças mais pobres um aprendizado tão bom quanto o recebido pelas crianças das melhores classes sociais. Isto porque a escola tem a função de justiça social. Ao aumentar a competência da criança, a escola permite a ascensão social.

Folha Dirigida — O modelo que temos hoje aumenta a desigualdade social?

Capovilla — Exatamente, porque se a escola brasileira não ensina, as crianças vão fracassar, se evadir, repetir de ano. Os pais, vendo isso, têm duas opções: os ricos contratam tutor, compram livros. Já os pais pobres, operários, não podem ajudar os seus filhos. Sob o construtivismo os filhos dos pobres se tornam mais pobres, e os dos ricos mais ricos, porque eles têm profissionais para lhes dar o que a escola está sonegando.

Folha Dirigida — Falamos que a alfabetização no Brasil é feita de forma incorreta. E com relação à formação dos professores? Como o sr. vê esta questão?

Capovilla — Piaget fazia a seguinte pergunta: Por que o professor tem tão má reputação (no sentido de respeito) em relação a outras profissões? Por que um médico é respeitado e o professor não, se educação e saúde caminham lado a lado? Segundo ele, isso ocorre porque o professor não faz pesquisa, não descobre por si mesmo o que funciona e o que não funciona. Ele não conquista o respeito intelectual como as outras profissões fazem.

Folha Dirigida — O sr. acha que a formação do professor alfabetizador deve ter preocupação com a pesquisa?

Capovilla — Sem dúvida. Se o professor tiver uma formação de metodologia de pesquisa ele poderá publicar artigos, livros, trocar idéias em congressos.

Folha Dirigida — É comum se falar na desvalorização do professor e atribuir isto à questão salarial. O sr. diria que não é só isso, mas sim que ele deve se impor enquanto bom profissional?

Capovilla — Para o professor ser valorizado ele tem que se valorizar, ou seja, tem que obter resultados melhores do que tem obtido. Quando alguém obtém bons resultados se sente bem, se valoriza, o auto-respeito aumenta e ele pode falar de igual para igual com qualquer pessoa. Neste caso, o professor pode conseguir financiamento para pesquisa e melhorar o orçamento. Ele deve fazer pós-graduação, que ensina metodologia de pesquisa. Na própria faculdade deve fazer estatística, noções de pesquisa, experimentos para que possa descobrir o que é melhor para as crianças e não ficar dependendo do cientista. Deve especializar-se em descobrir como melhorar o desempenho das mais variadas crianças. Hoje, a escola tem que incluir as crianças portadoras de necessidades especiais, e isto demanda pesquisa.

Folha Dirigida — Os docentes estão preparados para lidar com estes alunos?

Capovilla — Os meus professores estão. O que faço na educação especial faz com que as crianças possam ir para a sala de aula. Se dermos aos professores os instrumentos que eles precisam para avaliar estes alunos e às crianças os instrumentos para que possam aprender a ler, escrever e fazer o dever de casa a inclusão é possível. Estou fazendo pesquisas sobre isso há 25 anos e tenho todos os instrumentos. Basta o governo querer usar. Sou da USP, universidade pública e gratuita. Então, o instrumento do meu trabalho como pesquisador deve estar nas mãos do professor e compete ao governo pegar este material e dar para o professor. Mas o governo fala muito e deixa o professor desassistido. Não dá ao professor instrumento de avaliação, não dá a criança instrumentos de comunicação e espera que ela seja incluída. Como fazer isso? Por milagre? Não, por meio de pesquisa científica, de implantações tecnológicas.

Folha Dirigida — A exigência de que os professores tenham nível superior vai melhorar a qualidade do ensino?

Capovilla — Demandar educação é a tendência universal. Cada vez mais educação, sem dúvida, é bom. Agora é preciso avaliar a qualidade da formação universitária que vai ser dada a estes profissionais. Esta formação deve necessariamente incluir metodologia de pesquisa científica, estatística, como descobrir o que fazer. Assim, o educador brasileiro não vai depender dos outros para lhe dizer o que fazer. Ele poderá observar a melhor forma de alfabetizar.

Folha Dirigida — O Sr. é psicólogo, atuava numa clínica de reabilitação de leitura. Como caminhou para a pesquisa na área educacional?

Capovilla — Comecei como clínico. Tratava de distúrbios de leitura, mas minha clínica não parava de receber crianças. Percebi que uma parte delas tinha um problema de natureza biológica que chamamos de dislexia (distúrbio de aquisição de leitura). Crianças dislexas existem no mundo inteiro, mas no Brasil a taxa parecia ser extraordinariamente maior. Quando avaliava percebia que muitas crianças não eram dislexas, não tinham histórico de dislexia na família. Então, como elas tinham na escola um desempenho tão próximo de dislexia? Na análise descobrimos que os casos ocorrem em crianças de uma mesma turma, de uma mesma escola. O que este país está fazendo? Enchendo as clínicas de reabilitação, públicas e gratuitas, porque a escola não está alfabetizando.

Folha Dirigida — Por isso o sr. resolveu investir na pesquisa nesta área?

Capovilla — Eu já fazia pesquisa. Isto me encaminhou para uma atuação política nas escolas. Vi que o problema não era clínico, e sim educacional. Que é necessário atuar preventivamente para fazer justiça social. Se a escola fizer o seu trabalho, só vai para a clínica quem precisa de tratamento. O Brasil se dá ao luxo de sacrificar, de crucificar as suas crianças no altar da incompetência para adorar a deusa, Emília Ferrero, dos construtivistas. Isto é um crime.

(Entrevista retirada do site RedePsi)

Biografias de grandes homens para crianças

17 de novembro de 2011 | Publicado por Mariana em Biografias - (1 Comentário)

O filme “Mãos Talentosas” (Gifted Hands: The Ben Carson Story, 2009) conta a história de superação do Dr. Benjamin Carson, um renomado neurocirurgião pediátrico americano. Quando criança, Ben Carson era tachado de burro na escola, suas notas eram péssimas e, para piorar a situação, tinha um temperamento agressivo. A educação que recebeu de sua mãe foi um dos fatores determinantes para o seu sucesso: ela acreditava em seu potencial e dava a ele todo o encorajamento para que conseguisse ter a formação que ela mesma não teve. A mãe de Ben Carson restringia as horas que ele e seu irmão passavam em frente à televisão e os obrigava a ler e escrever resumos de no mínimo dois livros por semana (embora ela mesma não pudesse lê-los).

Num depoimento que encontrei no YouTube, o Ben Carson da vida real fala sobre como naquela época leu bastante sobre histórias de vida de pessoas bem sucedidas. Isso é algo fundamental para a educação de crianças: devemos contar e ler para elas biografias de grandes homens para que impregnem seu imaginário com imagens de vidas virtuosas, bem sucedidas, onde homens atenderam suas verdadeiras vocações e seguiram valores elevados. Um bom começo seria contar às crianças algumas biografias de santos.

 

Tradução do vídeo:

Bem, eu fui afortunado o bastante por ter uma mãe que acreditou em mim quando ninguém mais acreditou. E ela se recusou em permitir que eu falhasse. E ela só nos permitia assistir pouco tempo de televisão e nos fazia ler livros. Quando todos estavam fora brincando nós tínhamos que ler livros. Mas, no processo de ler aqueles livros, eu li sobre muitas pessoas, pessoas bem sucedidas. E eu vim a perceber que a pessoa que mais tem a ver com o que acontece com você é você! Não é outra pessoa. Não é uma influência externa. Não é um fator ambiental. É você e as escolhas que você faz. E uma vez que eu percebi isso, a pobreza não me incomodou mais, porque eu sabia que eu poderia mudar isso. Nada realmente me incomodou mais, porque eu sabia que eu poderia mudar, independentemente do que fosse. E essa é a mensagem que eu estou tentando transmitir para as outras pessoas. Não importam quais tenham sido as circunstâncias nas quais você nasceu, desde que você tenha um cérebro normal. Porque o cérebro humano é o mais fabuloso sistema de órgãos no universo. Todos os cérebros humanos são. E eu posso lhe dizer, como um neurocirurgião, quando eu abro aquele crânio e retiro aquele osso e estou olhando para aquele cérebro, eu não tenho como dizer se aquele cérebro é da África, ou da Escandinávia, ou do Iran, ou da América do Sul, porque eles são todos iguais. E o fato é que é isso que nos faz ser quem realmente somos. A coisa externa é apenas embalagem. Realmente não significa nada. Eu acho que as pessoas colocam demasiada ênfase nas coisas erradas.

Com objetos muito simples, liberdade e criatividade, uma criança pode inventar um mundo de brincadeiras. É claro que o vídeo foi produzido por adultos e muitas das idéias são deles próprios, mas serve para nos alertar sobre a importância de darmos liberdade às crianças para que elas mesmas decidam o que fazer com seu tempo livre. Nada de um quarto atulhado de brinquedos e nada de uma agenda lotada de aulas especializadas…

The Adventures of a Cardboard Box

Fotografia de menina desenhando

Sempre observei que alguns pais e professores, ao verem um desenho ou trabalho de arte de uma criança, fazem um estardalhaço totalmente desnecessário:

– Filho, que desenho MA-RA-VI-LHO-SO!

– Nossa, essa sua pintura está linda demais!!!

Elogios desse tipo não têm a menor validade: para a criança, desenhar, pintar e modelar são atividades naturais e um elogio exagerado não condiz com a situação. É como se um adulto fosse elogiado por escrever alguma coisa qualquer. Além disso, pode ser que a criança não tenha feito nem um pingo de esforço para fazer um desenho ou mesmo saiba que no fundo aquele não é nem de longe seu melhor trabalho. Não faz sentido para a criança receber um elogio numa situação como essa. Além disso, pode acontecer da criança que recebe um elogio desses pensar: “Ah, esse tipo de desenho é o que minha mãe mais gosta…”. O desenvolvimento do desenho fica estagnado e o mesmo esquema é repetido milhões de vezes.

Ao invés de elogiar exageradamente o trabalho de uma criança, o melhor é conversar sobre o trabalho produzido, mas tendo o cuidado para não sair perguntando “o que é isso?”, “e isso?”. Uma pergunta como essa feita a uma criança muito pequena que ainda não tenha estabelecido a relação entre sua garatuja e formas reais, não diz nada e, para algumas crianças maiores, pode gerar uma reação do tipo “ora, mãe, não está vendo que esse aqui sou eu?”. Ao invés de elogios ou este último tipo de pergunta, um bom diálogo que ajudaria a demonstrar algum interesse pelo trabalho da criança poderia ser mais ou menos assim:

– Olha só que juba grandona a desse leão! Parece com o leão do zoológico que fomos na semana passada…

– É, e esse aqui sou eu, você e o papai lá no zoológico!

– Ah sim, estou vendo. E você lembra dos outros animais que nós vimos lá no zoológico?

– Tinha o gorila… a girafa…

 E por aí vai…