Informações para pais e educadores
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Neste ensaio (The Lost Tools of Learning), Dorothy Sayers explica que atualmente ensinamos tudo às crianças, exceto como aprender. Este ensaio foi indicado pela professora Margarita Noyes no programa do Blog Talk Radio “Margarita Noyes on Homeschooling”, no dia 18 de janeiro de 2012 (Programa 5).

por Dorothy Sayers

Eu, cuja experiência de ensino é extremamente limitada, devo presumir que discutir educação é uma matéria, certamente, que não requer apologia. Isto é uma espécie de comportamento que o presente clima de opinião é inteiramente favorável. Os bispos ventilam suas opiniões sobre economia; biólogos, sobre metafísica; químicos inorgânicos, sobre teologia; as pessoas mais irrelevantes são designadas aos ministérios altamente técnicos; e claro, homens rudes escrevem para os jornais para dizer que Epstein e Picasso não sabem como pintar. Até certo ponto, e desde que as críticas sejam feitas com uma modéstia razoável, essas atividades são recomendáveis. Demasiada especialização não é boa coisa. Há também uma excelente razão porque o amador pode sentir-se com o direito de ter uma opinião sobre a educação. Porque se nem todos nós somos professores profissionais, todos nós temos, em algum tempo ou outro, sidos ensinados. Até se não aprendemos nada – talvez em detalhe se não aprendemos nada – nossa participação para a discussão pode ter um valor potencial.

Entretanto, está no mais alto grau de improbabilidade que as reformas que eu proponho, em algum tempo implicarão em efeito. Nem pais, nem treinamento em faculdades, nem bancas examinadoras, nem secretarias de governos, nem os ministros de educação, as encarariam e aprovariam. Pois elas redundam nisto: que se vamos formar uma sociedade de pessoas educada, preparadas para preservar a sua liberdade intelectual no meio das fortes pressões da nossa sociedade moderna, precisamos voltar a roda do progresso até uns quatrocentos ou quinhentos anos atrás, mais ou menos no final da Idade Média, até o ponto em que a educação começou a perder de vista o seu verdadeiro objetivo.

Antes que me despeçam com a frase apropriada — reacionária, romântica, medieval, laudator temporis acti [fã do passado], ou qualquer que seja o rótulo que primeiro lhes venha às mãos — eu pedirei que considerem uma ou duas perguntas que ficam escondidas na nuca, talvez, de todos nós; e ocasionalmente apareçam para preocupar-nos.

Quando pensamos sobre a idade tão jovem na qual os rapazes iam para a universidade nos tempos, digamos, da dinastia Tudor; e dali em diante eram considerados capazes de assumir responsabilidade pela condução dos seus próprios assuntos, nós nos confortamos.

Quando pensamos sobre a incrível tenra idade com a qual os jovens iam para a universidade, digamos, nos tempos da dinastia Tudor, e a partir de então eram tidos como capazes de assumir a responsabilidade pela condução dos seus próprios atos, de uma maneira geral nos sentimos confortáveis com a prolongação artificial da infância e adolescência intelectual, que adentra os anos de maturidade física, a qual é tão marcada na nossa própria época? O fato de adiar a aceitação de responsabilidade para uma data posterior traz consigo um número de complicações psicológicas que, enquanto possam ser de interesse para psiquiatras, raramente são de benefício seja para o indivíduo ou para a sociedade. O principal argumento em favor de adiar-se a idade de deixar a escola prolongando o período de educação é geralmente o de que há hoje em dia muito mais para ser aprendido do que havia na Idade Média. Isto em é verdadeiro, mas não inteiramente. Muito mais matérias são ensinadas aos meninos e às meninas de hoje em dia — mas isto significa que eles realmente sabem mais?

Já lhe ocorreu como estranho, ou lamentável, que atualmente, quando a proporção de alfabetismo em toda a Europa Ocidental é mais alta do que jamais foi, as pessoas devessem tornar-se suscetíveis à influência de anúncios e de propaganda em massa, em proporção até então desconhecida, nem imaginada? Você atribui isto meramente ao fator mecânico de que a imprensa e o rádio e demais meios têm tornado muito mais fácil a distribuição da propaganda numa grande área? Ou você é algumas vezes incomodado pela suspeita de que o produto dos modernos métodos educacionais é menos bom do que ele ou ele podem ser em distinguir o fato da opinião; e o provado do plausível?

O ensaio pode ser lido integralmente no site Monergismo


Manhã de uma família homeschooler

16 de janeiro de 2012 | Publicado por Mariana em Homeschooling - (3 Comentários)
Fotografia da família de homeschoolers Lacquement
Hope, Niqui e Jeannine

Na última sexta-feira fui fazer uma visita à família Lacquement, que vive no norte da Virginia, EUA. Fui muito bem recebida por Jeannine, sua filha Niqui e por Hope, amiga da família que é educada em casa junto a Niqui desde seus quatro anos de idade. Hoje as meninas têm 11 anos de idade.

Pude ver de perto uma manhã típica de uma família de homeschoolers. Quando cheguei, as meninas estavam fazendo exercícios de Matemática (Jeannine combina vários livros e materiais para uma mesma disciplina, aproveitando o que cada um tem de melhor). Toda a casa parecia uma escola: linhas do tempo, mapas, fotografias de personagens históricos, desenhos e poesias nas paredes, livros sobre a mesa de jantar, materiais e livros dispostos na cozinha.

 Em pouco tempo as meninas terminaram a atividade de Matemática e Jeannine começou a repassar com elas alguns fatos históricos que haviam estudado recentemente enquanto as duas coloriam um mapa e marcavam com diferentes cores os locais onde os acontecimentos haviam se passado. Logo que terminaram passaram para o Latim e Jeannine iniciou um ditado, dando a atenção que cada uma das duas meninas necessitava.

Para mim, foram confirmados alguns dos grandes benefícios do homeschooling:

  1. As meninas são confiantes em sua capacidade de aprender e participam de forma muito ativa.
  2. Jeannine conhece muito bem a forma de aprender de cada uma das crianças. Sabe, por exemplo, que Niqui aprende de forma mais visual e Hope de forma mais auditiva e, com isso, planeja atividades específicas e cria abordagens para atender as necessidades de cada uma.  Numa sala de aula com 30 alunos isso nunca seria possível. Uma criança que aprenda de forma mais cinestésica, por exemplo, dificilmente tem boas oportunidades nas escolas e logo é taxada como hiperativa. O que as pessoas não percebem é que o problema é da escola, não da criança!
  3. O ritmo das tarefas, leituras e atividades segue o ritmo das meninas, e não horários pré estabelecidos. Em decorrência disso e da atenção individualizada da mãe, as meninas estão muito mais avançadas academicamente do que crianças da mesma idade que estudam nas escolas públicas ou privadas.
  4. Ambas as garotas são muito sociáveis e maduras: sabem como lidar e conversar com adultos e se dão muito bem entre si e com os demais amigos que encontram semanalmente nas atividades que realizam fora (Hope frequenta uma cooperativa de homeschoolers onde tem aulas de Arte e Niqui tem aulas de memorização com um grupo de crianças de variadas idades).

Além das disciplinas básicas, as meninas estudam latim, têm aulas de piano com uma tutora e têm bastante tempo livre para se envolverem em projetos de arte e outras atividades que sejam de seu interesse.

Aguardem por mais posts sobre a família Lacquement e outras famílias que fazem homeschooling e que irei visitar aqui nos Estados Unidos.

Conversa que ouvi outro dia no caixa da farmácia entre uma mãe e sua filha de mais ou menos 5 anos:

Filha: Mãe, compra esse chocolate aqui?

Mãe: Não, você já comeu doce hoje e já está tarde. Além disso, hoje é segunda-feira.

Filha: Por favor, é só hoje…

Mãe: (continua negando)

Filha: (continua insistindo)

Mãe: (pega o chocolate e entrega para a moça do caixa cobrá-lo)

Fotografia de um menino vidrado numa vitrine com uma fonte de chocolate

A menina ficou satisfeita e muitos podem pensar que esta é uma situação inofensiva. No entanto, há aí muitos problemas:

1) Ao invés de dizer apenas um claro “não”, a mãe já começa dando um monte de explicações (algumas sem o menor sentido), o que abre uma brecha para as insitências e tentativas de negociação da filha.

2) Uma vez que disse “não”, a mãe jamais deveria voltar atrás por conta da insistência da menina. Quando faz isso enfraquece sua autoridade e leva a filha a pensar que sempre que insistir ou até mesmo fazer pirraça, terá o que deseja.

3) A mãe acaba dando a entender que a filha pode ter o que quiser sempre que desejar, ao invés de privá-la um pouco da ânsia de consumir (ainda mais algo que achava inadequado naquele momento). Uma atitude dessas só leva a criar uma pessoa que não saberá lidar com as frustrações e dificuldades da vida.

Por mais que uma mãe ou pai esteja cansado ou sem paciência, jamais deveria ceder em uma situação como esta!

Neste vídeo a professora Margarita Noyes fala sobre a grande importância das biografias de grandes homens na formação do caráter de crianças e jovens. Ela conta sobre sua experiência e indica alguns livros de biografias para crianças. No Brasil não conheço bons livros infantis de biografias e, portanto, reforço a dica da Margarita: os pais brasileiros podem pesquisar biografias que valham a pena ser contadas e recontá-las para seus filhos. Ou ainda adquirir os livros em inglês e recontá-los em português. No Brasil os materiais e livros de qualidade para crianças são muito escassos se comparados à riqueza de publicações existentes nos Estados Unidos. Ainda é preciso produzir tudo isso em português, mas, até que isso aconteça, os pais precisam pesquisar alternativas e adaptar as dicas da Margarita para a realidade brasileira.

A xilogravura é uma técnica que funciona como um carimbo: com goivas e instrumentos cortantes, escava-se uma imagem na madeira que servirá como uma matriz para várias impressões. Durante séculos a xilogravura foi utilizada para a reprodução da escrita e de imagens em livros e é também uma técnica utilizada por vários artistas. Para conhecer um pouco mais sobre esta técnica, assista ao vídeo abaixo, produzido por mim em 2007:

Apesar de parecer complicado, uma criança de 6 ou 7 anos consegue perfeitamente produzir uma xilogravura, desde que tenha ferramentas e uma madeira macia. O importante é lembrá-la de nunca colocar a mão que apoia a madeira na frente da mão que segura a goiva!

Criança produzindo uma xilogravura

Junto ao trabalho prático, valeria a pena apreciar algumas xilogravuras. Aí vão algumas poucas imagens:

The Mothers, xilogravura de Kathe Kollwitz

As mães (Die Mütter), Käthe Kollwitz, 1923.

 

The widow, xilogravura de Kathe Kollwitz

A viúva (Die Witwe I), Käthe Kollwitz, 1923

 

Chegada do barco, xilogravura de Goeldi

Chegada do Barco, Oswaldo Goeldi, s.d..

Cheguei aos Estados Unidos há duas semanas com o intuito de aprender mais sobre como funciona o homeschooling aqui. Estou na casa da família Noyes, na Virginia. Aqui há muito que aprender, prateleiras cheias de livros sobre homeschooling, biografias, ciências naturais, história e literatura para todas as idades. Há também um piano, flautas, violões, guitarra. No primeiro dia que cheguei aqui, Margarita Noyes me levou para um passeio pelo bosque que rodeia sua casa para me mostrar como ela ensinava ciências naturais para os filhos dela quando eram crianças. Nada de livros didáticos! O que ela fazia era passear com as crianças e ir mostrando a elas detalhes da natureza e fazendo perguntas para que elas tentassem descobrir por que as coisas eram daquela forma ou por que funcionavam daquele jeito. Ela fazia perguntas como:
fotografia de folha vermelha
  fotografia de árvores
“Por que a raiz desta árvore está exposta? Isso não é comum para essa espécie de árvore!”
“Por que será que a folha desta árvore fica vermelha?”
“Por que as folhas de algumas das árvores já caíram e as de outras não?”

 

As perguntas estimulam às crianças a raciocinarem e usarem a imaginação para descobrir a resposta correta, o que é muito diferente de dar um monte de respostas e informações prontas. Também os encoraja a fazerem suas próprias perguntas e desenvolverem sua curiosidade, tão necessária ao aprendizado. e Livros de ciências naturais ajudam a identificar espécies de plantas e animais e uma pesquisa anterior pode ajudar muito os pais a fazerem as perguntas corretas e a guiarem o passeio de forma produtiva.
Sempre que possível os pais deveriam levar seus filhos para passeios educativos, onde as crianças podem dar muito mais sentido para o que aprendem do que lendo um monte de informações num livro didático.