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Ensino como uma atividade divertida – Parte 3

3 de abril de 2013 | Publicado por Mariana em Desenvolvimento infantil

Terceira e última parte do capítulo 10 do livro “Amusing Ourselves to Death”, de Neil Postman. Ele aponta os problemas que surgem quando a televisão passa a ser tida como meio para o aprendizado, através dos programas “educativos”. Segundo Postman, “a principal contribuição da televisão para a filosofia da educação é a idéia de que o ensino e o entretenimento são inseparáveis”. Leia também a primeira parte e a segunda parte do texto.

Tradução: Leandro Diniz

Podemos começar a pensar sobre o que “The Voyage of the Mimi” significa ao recordar de que a idéia é tudo menos original. O que aqui é referido como uma “integração de três mídias” ou uma “apresentação multimídia” já foi chamado de “ajudas audiovisuais”, usadas pelos professores por anos, usualmente para o modesto propósito de reforçar o interesse dos estudantes no currículo. Além disso, muitos anos atrás, o Serviço de Educação (como o Departamento era então chamado) forneceu fundos ao WNET para um projeto planejado similarmente e chamado “Watch your mouth [Olha sua boca]”, uma série de dramatizações televisivas nas quais jovens propensos ao mal uso da língua inglesa atrapalhavam-se em uma variedade de problemas sociais. Linguistas e educadores prepararam as lições para os professores utilizarem conjuntamente a cada programa. As dramatizações eram convincentes – embora nem de longe tão boas quanto “Welcome Back, Kotter”, que tinha a vantagem indiscutível do carisma de John Travolta –, mas não houve nenhuma evidência de que os estudantes de quem era exigido ver “Watch your mouth” aumentaram sua competência no uso da língua inglesa. De fato, desde que não existe uma falta de inglês deformado nos comerciais televisivos diários, poderia-se se perguntar naquele tempo o porquê do governo dos Estados Unidos ter que pagar alguém para o trabalhoso processo de produzir inépcias adicionais como fonte para o estudo na sala de aula. Uma gravação de qualquer programa de David Susskind proveria um professor de inglês com aberrações linguísticas suficientes e dignas de análise para preencher um semestre.

Todavia, o Departamento de Educação seguiu em frente, aparentemente na crença de que amplas evidências – para citar Ms. Richards novamente – “mostram que o aprendizado aumenta quando a informação é apresentada num contexto dramático, e a televisão pode fazer isso melhor do que qualquer outro meio.” A resposta mais caridosa a essa afirmação é que ela está enganada. George Comstock e seus associados revisaram 2,800 estudos sobre o tópico geral da influência da televisão no comportamento, incluindo o processamento cognitivo, e foi incapaz de apontar evidências persuasivas de que “o aprendizado aumenta quando a informação é apresentada num contexto dramático”. De fato, em estudos conduzidos por Cohen e Salomon; Meringoff; Jacoby, Hoyer e Sheluga; Sahuffer, Frost e Rybolt; Stern; Wilson; Neuman; Katz, Adoni e Parness; e Gunter, a conclusão completamente oposta é justificada. Jacoby et al. encontrou, por exemplo, que somente 3.5 porcento dos espectadores foram capazes de responder com sucesso vinte perguntas verdadeiro/falso relacionadas a dois segmentos de trinta segundos de programas e anúncios da televisão comercial. Stauffer et al. encontrou ao estudar as respostas dos estudantes a um programa de notícias transmitido via televisão, rádio e impressão, que o impresso aumenta significativamente as respostas corretas às questões relativas aos nomes das pessoas e números contidos no material. Stern notou que 51 porcento dos espectadores não conseguiam lembrar um único item das notícias poucos minutos depois de assistir um programa de notícias na televisão. Wilson encontrou que o espectador mediano de televisão consegue reter apenas 20% da informação contida em uma notícia de ficção televisiva. Katz et al. encontrou que 21 porcento dos espectadores de televisão não podem lembrar de qualquer item das notícias depois de uma hora da transmissão. Com base do seu e outros estudos Salomon concluiu que “os significados mantidos pela televisão são mais prováveis de serem segmentados, concretos e menos inferenciais, e aqueles mantidos pela leitura têm maior probabilidade de serem melhor amarrados ao conhecimento possuído por alguém e, então, são mais prováveis se serem inferenciais.” Em outras palavras, até onde vai o entendimento de muitos estudos respeitáveis, assistir televisão não aumenta significantemente o aprendizado, é inferior e menos provável de cultivar o pensamento inferencial e de alta ordem do que a leitura.

Mas alguém pode não dar muito crédito para a retórica daqueles que recebem fundos. Nós estamos todos inclinados a transformar nossas esperanças em tênues reivindicações quando um projeto importante está em jogo. Além disso, não tenho dúvidas que Ms. Richards pode nos conduzir a muitos estudos que emprestam suporte ao seu entusiasmo. O ponto é que se você quer dinheiro para o propósito redundante de colocar as crianças para assistirem mais televisão do que elas já assistem – e dramatizar sobre isso – você tem que intensificar a retórica a níveis hercúleos.

O que é de maior significância sobre “The Voyage of Mimi” é que o conteúdo selecionado foi obviamente escolhido porque é eminentemente televisionável. Porque esses estudantes estão estudando o comportamento das baleias jubarte? Quão importante é isto, que os “temas acadêmicos” de navegação e a habilidade de ler mapas devem ser aprendidos? Habilidades de navegação nunca foram consideradas um “tema acadêmico” e de fato parece singularmente inapropriado para a maior parte dos estudantes de grandes cidades. Por que foi decido que “baleias e seu ambiente” é um assunto convincente de tal interesse que merece um ano inteiro de trabalho sobre ele?

Eu sugeriria que “The Voyage of the Mimi” foi concebido por alguém que fez a seguinte pergunta, “o que é bom na televisão?”, e não, “o que é bom na educação?” A televisão é boa para dramatizações, naufrágios, aventuras marítimas, capitães marítimos mal-humorados, e físicos sendo entrevistados por atores famosos. E que, é claro, é o que nós temos em “The Voyage of the Mimi”. O fato de que esta aventura em episódios é acompanhada por livros ricamente ilustrados e jogos de computador somente sublinha que a apresentação televisiva controla o currículo. Os livros cujas figuras os estudantes irão explorar e os jogos de computadores que os estudantes irão jogar são orientados pelo conteúdo dos programas de televisão, e não o contrário. Livros, afigura-se, se tornaram agora uma ajuda audiovisual; o principal contador do conteúdo da educação é o programa de televisão, e sua principal reivindicação para um lugar de destaque no currículo é que ele entretém. É claro, uma produção televisiva pode ser usada para estimular o interesse nas aulas, ou mesmo como o ponto focal da aula. Mas o que acontece aqui é que o conteúdo do currículo escolar está sendo determinado pelas características da televisão, e ainda pior, essas características aparentemente não estão incluídas como parte do que é estudado. Alguém teria pensado que a sala de aula é o lugar adequado para os estudantes perguntarem sobre os caminhos nos quais as mídias de todos os tipos – incluindo a televisão – moldam as atitudes das pessoas e suas percepções. Desde que nossos estudantes terão de assistir aproximadamente dezesseis mil horas de televisão até saírem da escola, as questões deveriam ter surgido, mesmo nas mentes dos oficiais do Departamento de Educação, sobre quem ensinará nossos estudantes como olhar para a televisão, e quando não o fazer, e com quais equipamentos críticos o fazer. O projeto “The Voyage of Mimi” ignora essas questões; de fato, espera que seus estudantes irão se inserir nas dramatizações com o mesmo estado de espírito de quando veem “St. Elsewhere” ou “Hill Street Blues”. (Alguém pode também assumir que o que é chamado de “alfabetização digital” não envolve o levantamento de perguntas sobre os vieses cognitivos e efeitos sociais do computador, que, eu arriscaria, são as mais importantes questões que chamam a atenção sobre as novas tecnologias.)

“The voyage of the Mimi”, em outras palavras, gastou $3.65 milhões com o propósito de utilizar a mídia exatamente da maneira que os empresários da mídia querem que eles a usem, negligente e invisivelmente, como se as próprias mídias não tivessem uma agenda epistemológica e política.

E, no final, o que os estudantes terão aprendido? Eles, para certificar, terão aprendido algo sobre baleias, talvez sobre navegação e leitura de mapas, e muito disso eles poderiam ter aprendido tão bem da mesma maneira por outros meios. Principalmente, eles terão aprendido que aprender é uma forma de entretenimento ou, mais precisamente, que algo digno de aprender pode ter a forma de um entretenimento, e deve assim ser. E eles não vão se revoltar se o professor de inglês os convidar para aprender as oito partes do discurso através do intermédio do rock. Ou se seu professor de estudos sociais cantar para eles os fatos sobre a Guerra de 1812. Ou se o de física vier até eles com biscoitos e camisetas. De fato, eles vão esperar isso e, então, estarão bem preparados para aceitar seus políticos, sua religião, suas notícias e seus negócios da mesma maneira deliciosa.

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