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Ensino como uma atividade divertida – Parte 2

14 de março de 2013 | Publicado por Mariana em Desenvolvimento infantil

Segunda parte do capítulo 10 do livro “Amusing Ourselves to Death”, de Neil Postman. Ele aponta os problemas que surgem quando a televisão passa a ser tida como meio para o aprendizado, através dos programas “educativos”. Segundo Postman, “a principal contribuição da televisão para a filosofia da educação é a idéia de que o ensino e o entretenimento são inseparáveis”. Leia também a primeira parte do texto.

Tradução: Leandro Diniz

Tendo devotado previamente um livro, Teaching as a Conservative Activity [Ensino como uma atividade conservadora], a um exame detalhado da natureza antagonista dos dois currículos – da televisão e da escola – eu não vou sobrecarregar o leitor ou eu mesmo com uma repetição daquela análise. Mas eu gostaria de relembrar dois pontos que eu sinto não ter expressado com a devida força naquele livro, e que acaba por ser central a este. Eu me refiro, primeiramente, ao fato de que a principal contribuição da televisão para a filosofia da educação é a idéia de que o ensino e o entretenimento são inseparáveis. Esta concepção inteiramente original não é encontrada em nenhum discurso sobre educação, de Confúcio a Platão a Cícero a Locke a John Dewey. Ao procurar literatura sobre educação, você achará dito por alguns que as crianças aprenderão melhor quando elas estão interessadas no que a elas é ensinado. Vai achar dito – Platão e Dewey enfatizam isso – que a razão é melhor cultivada quando está enraizada em terreno emocional robusto. Vai até mesmo achar alguns que dizem ser o aprendizado melhor facilitado por um professor benigno e amoroso. Mas ninguém nunca disse ou deixou implícito que o aprendizado significante é efetiva e verdadeiramente alcançado de maneira duradoura quando a educação é entretenimento.

Filósofos da educação têm assumido que tornar-se aculturado é difícil por que isto necessariamente envolve a imposição de restrições. Eles argumentaram que deve existir uma sequência no aprendizado, que a perseverança e uma certa medida de transpiração são indispensáveis, que os prazeres individuais devem ser freqüentemente submetidos aos interesses da coesão do grupo, e que o aprendizado para ser crítico e para pensar conceitualmente e com rigor não vem com facilidade aos jovens, mas são vitórias depois de difíceis lutas. De fato, Cícero sublinhou que o propósito da educação é libertar o estudante da tirania do presente, o que não pode ser prazeroso para aqueles, como os jovens, que estão lutando duramente para fazer o oposto – isto é, acomodar-se ao presente.

A televisão oferece uma deliciosa e, como eu disse, original alternativa a tudo isso. Podemos dizer que existem três mandamentos que formam a filosofia da educação que a televisão oferece. A influência desses mandamentos é observável em todos os tipos de programas televisivos – desde “Vila Sésamo” aos documentários de “Nova” e do “The National Geographic” à “Ilha da Fantasia”, à MTV. Os mandamentos são os que seguem:

Tu não deverás ter nenhum pré-requisito

Todo programa de televisão deve ser um pacote completo em si mesmo. Nenhum conhecimento prévio deve ser exigido. Não deve existir nem mesmo um indício de que o aprendizado é hierárquico, de que é um edifício construído sobre uma fundação. O aprendiz deve ser autorizado a entrar em qualquer ponto sem prejuízo. Isto é por que você nunca ouvirá ou verá um programa de televisão começar com o aviso de que se o espectador não viu o programa anterior, o presente será sem sentido. A televisão é um currículo sem grades e não exclui nenhum espectador por motivo algum, em nenhum tempo. Em outras palavras, abolindo a idéia de sequenciamento e continuidade na educação, a televisão enfraquece a idéia de que sequência e continuidade tem algo a ver com o próprio pensamento.

Tu não deverás induzir à perplexidade

No ensino televisivo, a perplexidade é uma auto estrada para baixas audiências. Um aprendiz perplexo é um aprendiz que mudará para outro canal. Isso significa que não deve existir nada que haja de ser lembrado, estudado, aplicado ou, o pior de tudo, suportado. É assumido que qualquer informação, história ou idéia pode ser imediatamente acessível, desde que o contentamento do aprendiz, e não o seu crescimento, seja supremo.

Tu deverás evitar exposições como as dez pragas caídas sobre o Egito

De todos os inimigos do ensino televisivo, incluindo a continuidade e perplexidade, nenhum é mais formidável que a exposição. Argumentos, hipóteses, discussões, razões, refutações ou quaisquer dos instrumentos tradicionais do discurso racional transformam a televisão em rádio ou, pior, material impresso de terceira qualidade. Então, o ensino televisivo sempre toma a forma de contar histórias, conduzida através de imagens dinâmicas e apoiada por música. Isto é característico tanto de “Jornada nas Estrelas” quanto de “Cosmos,” de “Minha família é uma bagunça [Nickelodeon]”, de “Vila Sésamo,” de comerciais, de “Nova”. Nada será ensinado na televisão que não possa ser igualmente visualizado e colocado em contexto cênico.

O nome que podemos adequadamente dar a uma educação sem pré-requisitos, perplexidade e exposição é entretenimento. E quando alguém considera que salvo o sono não existe nenhuma atividade que ocupe mais o tempo da juventude da América do que assistir televisão, não podemos evitar a conclusão de que uma reorientação gigantesca em relação ao aprendizado está acontecendo.

O que leva ao segundo ponto que quero enfatizar: as conseqüências dessa reorientação estão para serem observadas não somente no declínio da potência das salas de aula, mas, paradoxalmente, em remodelar a sala de aula em um lugar onde tanto o ensino quanto aprendizado são planejados para ser atividades amplamente divertidas.

Eu já me referi ao experimento na Filadélfia no qual a sala de aula é reconstituída como um show de rock. Mas esse é, somente, o exemplo mais tolo de uma tentativa de definir a educação como um modo de entretenimento. Os professores, desde o primário até a universidade, estão aumentando a estimulação visual de suas lições; estão reduzindo a quantidade de exposição com a qual seus alunos têm que lidar; estão confiando menos nas tarefas de leitura e escrita; e estão relutantemente concluindo que o principal meio pelo qual o interesse do estudante pode ser mantido é o entretenimento. Sem nenhuma dificuldade eu posso preencher as próximas páginas desse capítulo com exemplos de esforços de professores – em alguns níveis, inconscientes – para fazer de suas salas de aula programas de televisão de segunda categoria. Mas vou encerrar o meu argumento com “The Voyage of the Mimi” [A Viagem do Mimi], que pode ser tomado como uma síntese, se não uma apoteose, da Nova Educação. “The Voyage of the Mimi” é o nome de um caro projeto científico e matemático que ajuntou algumas das mais prestigiosas instituições no campo da educação – o Departamento de Educação dos Estados Unidos, o Bank Street College of Education, o Public Broadcasting System-PBS [Sistema de Transmissão Pública] e a editora Holt, Rinehart and Winston. O projeto foi possibilitado por uma ajuda de $3,65 milhões do Departamento de Educação, que está sempre alerta para colocar seu dinheiro onde está o futuro. E o futuro é “The Voyage of the Mimi”. Para descrever o projeto sucintamente, eu cito quatro parágrafos do New York Times de 7 de agosto de 1984:

“Organizado em torno de uma série de televisão de vinte e seis episódios que retrata as aventuras de um laboratório flutuante de pesquisas sobre baleias, [o projeto] combina assistir televisão com livros ricamente ilustrados e jogos de computador que simulam o modo com que cientistas e navegadores trabalham… “The Voyage of the Mimi” é feito de programas de televisão de quinze minutos que retratam as aventuras de quatro jovens que acompanham dois cientistas e um capitão marítimo mal-humorado em uma jornada para monitorar o comportamento das baleias jubarte ao lago da costa do Maine. A tripulação do arrastão de atum adaptado navega o barco, rastreia as baleias e luta para sobreviver em uma ilha desabitada depois que uma tempestade danifica o casco do navio… Cada episódio teatral é, então, seguido de um documentário de quinze minutos sobre os temas relacionados. Um de tais documentários envolveu a visita de um dos atores adolescentes a Ted Taylor, um físico nuclear em Greenport, L.I., quem planejou uma maneira de purificar água do mar através do seu congelamento. Os programas de televisão, os quais os professores estão livres para gravar e utilizar a sua conveniência, são suplementados por uma série de livros e exercícios no computador que trabalham com quatro temas acadêmicos que emergem naturalmente do argumento da história: habilidades em mapas e navegação, baleias e seu ambiente, sistemas ecológicos e instrução em computadores.”

Os programas de televisão foram transmitidos através da PBS; os livros e programas de computador foram dados pela Holt, Rinehart and Winston; os especialistas em educação pela faculdade do Bank Street College. Então, “The Voyage of the Mimi” não é para ser desprezado. Como Frank Withrow do Departamento de Educação ressaltou, “Consideramos [o projeto] o carro chefe do que nós fazemos. É um modelo que outros começarão a seguir.” Todo mundo envolvido no projeto está entusiasmado, e extraordinários clamores de seus benefícios vêm seguidamente deles. Janice Trebbi Richards da Holt, Rinehart and Winston afirma, “As pesquisas mostram que o aprendizado aumenta quando a informação é apresentada num contexto dramático, e a televisão pode fazer isso melhor do que qualquer outro meio.” Oficiais do Departamento de Educação afirmam que o recurso de integrar três mídias – televisão, imprensa e computadores – repousa no seu potencial para cultivar habilidades de pensamentos de alta ordem. E Mr. Withrow é citado ao dizer que projetos como “The Voyage of the Mimi” pode significar grandes economias financeiras, que a longo prazo “é mais barato do que qualquer outra coisa que fazemos”. Mr. Withrow também sugeriu que existem muitas maneiras de financiar tais projetos. “Com ‘Vila Sésamo'”, ele disse, “levou cinco ou seis anos, mas eventualmente você pode ter retorno com camisetas e potes de biscoitos.”

(Continua)

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