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Ensino como uma atividade divertida – Parte 1

5 de março de 2013 | Publicado por Mariana em Desenvolvimento infantil

Este post traz a tradução da primeira parte do capítulo 10 do livro “Amusing Ourselves to Death”, de Neil Postman. Ele aponta os problemas que surgem quando a televisão passa a ser tida como meio para o aprendizado, através dos programas “educativos”. Segundo Postman, “a principal contribuição da televisão para a filosofia da educação é a idéia de que o ensino e o entretenimento são inseparáveis”.

Bebê assistindo televisão

Tradução: Leandro Diniz

Não poderia haver uma aposta mais segura, quando começou em 1969, de que “Vila Sésamo” seria abraçada pelas crianças, pais e educadores. As crianças o amaram, pois foram educadas com comerciais de televisão, os quais elas intuitivamente sabiam que eram os entretenimentos mais cuidadosamente criados na televisão. Para aquelas que ainda não tinham estado nas escolas, mesmo para aquelas que apenas haviam começado, a idéia de serem ensinadas por uma série de comerciais não parecia peculiar. E que a televisão as devia entreter foi tido como um assunto de fato.

Os pais abraçaram “Vila Sésamo” por diversas razões, entre elas a que diminuía sua culpa sobre o fato de que eles não podiam ou não restringiriam o acesso de suas crianças à televisão. “Vila Sésamo” apareceu para justificar as crianças de quatro ou cinco anos de idade ficarem sentadas transfixadas em frente à tela de uma tevê por períodos de tempo impensáveis. Os pais estavam ansiosos pela esperança de que a televisão pudesse ensinar a suas crianças algo além de qual cereal de café da manhã era o mais crocante. Ao mesmo tempo, “Vila Sésamo” os liberou da responsabilidade de ensinar às suas crianças em idade pré-escolar a ler – um assunto de importância em uma cultura onde as crianças estão aptas a serem consideradas um incômodo.

Eles também puderam ver claramente que apesar de suas falhas, “Vila Sésamo” era inteiramente consonante com o espírito que prevalecia na América. Seu uso de fantoches engraçados, celebridades, músicas cativantes, e edição rápida era certamente para dar prazer às crianças e, portanto, servia como uma preparação adequada para sua entrada em uma cultura do amor à diversão.

Quanto aos educadores, eles em geral também aprovaram “Vila Sésamo”. Contrário à opinião comum, eles estavam inclinados a achar os novos métodos agradáveis, especialmente quando estavam convencidos de que a educação pode ser alcançada mais eficientemente através das novas técnicas. (E é por isso que tais idéias como o “livro didático à prova de professor”, testes padronizados, e, agora, micro-computadores, têm sido bem vindos às salas de aula). “Villa Sésamo” pareceu ser uma ajuda imaginativa em resolver o problema crescente de ensinar aos americanos como ler, enquanto, ao mesmo tempo, encorajar as crianças a amarem a escola.

Sabemos agora que “Villa Sésamo” incentiva as crianças a amarem a escola somente se a escola se parecer com “Villa Sésamo”. Ou seja, sabemos agora que “Vila Sésamo” enfraquece o que a idéia tradicional de escola representa.

Enquanto a sala de aula é um local de interação social, o espaço defronte a televisão é uma reserva particular. Enquanto em uma sala de aula alguém pode fazer perguntas ao professor, não pode perguntar nada para uma tela de tevê. Enquanto a escola é centrada no desenvolvimento da linguagem, a televisão demanda atenção à imagens. Enquanto a freqüência à escola é um requerimento legal, assistir televisão é um ato de escolha. Enquanto na escola alguém falha em atender ao professor sob o risco de punição, não existem penalidades em se falhar em assistir à televisão. Enquanto o bom comportamento de alguém na escola significa observar regras de decoro público, assistir televisão não requer tais observâncias, não existe esse conceito de decoro público. Enquanto em uma classe a diversão nunca é mais que um meio para um fim, na televisão ela é o fim em si mesma.

Porém “Villa Sésamo” e seu descendente, “The Eletric Company”, não podem ser culpados por ridicularizar a clássica sala de aula. Se a sala de aula agora começa a parecer um ambiente velho e chato para aprender, podemos culpar os inventores da própria televisão, e não o Children’s Television Workshop. Não podemos esperar a preocupação com a finalidade de uma sala de aula daqueles que querem fazer bons shows para a televisão. Eles estão preocupados com a finalidade da televisão.

Isso não significa que “Vila Sésamo” não é educativa. Ela é, de fato, nada menos do que educativa – no sentido de que todo programa de televisão é educativo. Assim como ler um livro – qualquer tipo de livro – promove uma orientação particular em direção ao aprendizado, assistir um programa de televisão faz o mesmo. “The little house on the prairie”, “Cheers” e “The Tonight Show” são tão efetivos quanto “Vila Sésamo” ao promover o que pode ser chamado de estilo televisivo de aprendizado. E esse estilo de aprendizado é, por sua própria natureza, hostil ao que tem sido chamado de aprendizado por leitura ou seu aprendizado escolar pessoalmente assistido.

Se vamos culpar “Vila Sésamo” de algo, é por sua pretensão de ser uma aliada da sala de aula. Afinal de contas, isso tem sido o carro chefe para arrecadar fundos e dinheiro público. Como um programa de televisão, e um ótimo programa, “Vila Sésamo” não encoraja as crianças a amarem a escola ou qualquer coisa da escola. Ele as encoraja a amar a televisão.

Além disso, é importante adicionar que se “Vila Sésamo” ensina as crianças as letras e números ou não, é algo totalmente irrelevante. Podemos ter aqui como nosso guia as observações de John Dewey de que o conteúdo de uma lição é a última coisa, a menos importante, no aprendizado. Como ele escreveu em Experiência e Educação: “Talvez a maior falácia pedagógica de todas é a noção de que uma pessoa aprende somente o que ela está estudando no momento. O aprendizado colateral no caminho da formação de atitudes duradouras… pode ser, e geralmente é, mais importante do que a lição de ortografia ou uma lição de geografia ou história… Pois tais atitudes são o que fundamentalmente contam no futuro.”

Em outras palavras, a coisa mais importante que alguém aprende é sempre algo sobre como alguém aprende. Como Dewey escreveu em outro lugar, nós aprendemos o que fazemos. A televisão educa ao ensinar as crianças a fazer o que o ato de assistir televisão requer delas. E isso é precisamente distante do que uma sala de aula requer delas assim como ler um livro é de assistir a um programa de auditório.

Embora alguém não seja capaz de saber isso ao consultar as várias propostas de como endireitar o sistema de educação, este ponto – de que ler livros e assistir televisão diferem completamente no que eles implicam sobre o aprendizado – é hoje o problema educacional mais importante na América. América é, de fato, o caso exemplar ao evidenciar o que pode ser pensado como a terceira grande crise da educação Ocidental.

A primeira ocorreu no quinto século A.C., quando em Atenas teve lugar uma mudança de uma cultura oral para uma cultura de alfabeto e escrita. Para entender o que isso significou, devemos ler Platão. A segunda ocorreu no século dezesseis, quando na Europa aconteceu uma transformação radical como resultado da prensa móvel. Para entender o que isso significou, devemos ler John Locke. A terceira está ocorrendo agora, na América, como resultado da revolução eletrônica, particularmente a invenção da televisão. Para entender o que isso significa, devemos ler Marshall McLuhan.

Encaramos a rápida dissolução dos pressupostos de uma educação organizada ao redor do lento e em movimento mundo da impressão e a igualmente rápida emergência de uma nova educação, baseada na imagem eletrônica à velocidade da luz. A sala de aula ainda está, no momento, atada ao mundo da impressão, embora essa conexão esteja rapidamente enfraquecendo. Enquanto isso, a televisão avança, sem fazer concessões ao seu grande predecessor tecnológico, criando novas concepções do conhecimento e de como ele é obtido. Uma pessoa é inteiramente justificada em dizer que a maior iniciativa educacional que está agora sendo empreendida nos Estados Unidos não está acontecendo nas salas de aulas, mas nas casas, em frente às televisões, e sob a jurisdição não dos administradores das escolas e dos professores, mas dos executivos das cadeias de tevê e dos apresentadores.

Eu não quero dizer que a situação é um resultado de uma conspiração ou mesmo que aqueles que controlam a televisão assumem essa responsabilidade. Eu só quero dizer que, assim como o alfabeto ou a imprensa, a televisão tem pelo seu poder de controlar o tempo, atenção e hábitos cognitivos da nossa juventude, o poder de controlar a educação deles.

E é por isso, eu penso, que é adequado chamar a televisão de currículo. Como eu compreendo a palavra, um currículo é um sistema de informações especialmente estruturado, cujo propósito é influenciar, ensinar, treinar ou cultivar a mente e o caráter da juventude. A televisão, de fato, faz exatamente isso, e o faz incansavelmente. Fazendo assim ela compete, com sucesso, com o currículo escolar. Pelo que eu quero dizer, ela praticamente o elimina.

(Continua)

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