Informações para pais e educadores
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Depende de vós, mães, que aos seis meses o vosso queridinho saiba ler: o livre em que êle aprenderá a discernir o que é preciso e o que não deve ser feito, é o vosso rosto com as diversas expressões que registrar. Sabeis o que dêle quereis, e cada vez que a sua maneira de ser corresponde a vossa vontade – vosso olhar e vosso sorriso lhe dizem: “Está bem!” Quando êsse bom sorriso e êsse olhar de amor desaparecem, substituídos por uma expressão séria, a criança perceberá que há “algo mal feito”. Na vossa própria linguagem, se bem que não compreenda ainda as palavras, há um sentido que ela aprende. Um tom de zanga e um tom de carícia não são a mesma coisa para ela; as inflexões de vossa voz reforçam singularmente o alcance do vosso sorriso ou da vossa sisudez.

Fotografia de Carlos e Tobias NoyesNo vídeo abaixo, os irmãos Carlos e Tobias Noyes, filhos da professora Margarita Noyes, falam sobre alguns aspectos da educação domiciliar que receberam durante os anos de infância e adolescência: rotina, socialização e trabalho. O depoimento dos irmãos mostra como cada família acaba criando sua forma muito particular de homeschooling dependendo de suas prioridades, interesses, formação e personalidades dos pais e de cada filho. Não existe, portanto, nenhuma fórmula já pronta para educar em casa. O que os pais podem sim fazer é pesquisar métodos e materiais, estudar bastante, conversar com outras famílias que educam em casa, ficar atentos aos interesses de seus filhos e, assim, criar seus estilos personalizados de homeschooling.

A educação exige continuidade. Se mudais de opinião ou de humor a cada instante, desconcertareis a criança. Semelhantemente, se, por faltas idênticas, mostrais ora indulgência, ora severidade, a criança, que possui uma lógica rigorosa, se perturba, e, cedo, perde a cabeça.

É nos primeiros anos, sobretudo, que se adquirem os hábitos. Qualquer que seja o temperamento da criança, quaisquer que sejam os seus atavismos, é fácil orientar a “plantinha tenra” no caminho do bom-senso. Seja pela ordem, pelo respeito, pela higiene, pela polidez; seja pela lealdade, pela aceitação alegre das pequenas dificuldades da vida, pela aquisição dos reflexos da caridade – nada vale mais do que a constância para criar hábitos que, ao se tornarem autênticos traços psicofisiológicos, tudo facilitarão.

Mas, enquanto não se criar o hábito, é preciso não largar a presa.

São essa constância e essa continuidade que exigem o maior esforço do educador. Não será, talvez, necessário fazer tudo ao mesmo tempo, mas será por esforços repetidos no mesmo sentido, com doçura e firmeza, que se liberta a criança de sua tendência arraigada à preguiça e ao egoísmo.

Agir, castigar ou recompensar às tontas, sem razão proporcional, dá mais ou menos vagamente à criança a impressão de que “não é sério”. Daí ao “toma lá, dá cá”, há apenas um passo.

A Arte de Educar as Crianças de Hoje – Pe. G. Courtois

Menina e bebê comendo

Existem habilidades básicas que crianças de todas as idades devem desenvolver dentro de um determinado período. Se uma criança recebe a atenção devida em casa, tem pais cuidadosos, pacientes e interessados em sua educação, muito provavelmente irá desenvolver as habilidades comuns para sua idade. No entanto, é sempre bom que os pais conheçam algumas dessas habilidades para que possam trabalhá-las com seus filhos, ajudando-os a crescerem e amadurecerem. Pesquisando sobre isso, encontrei no site da Calvert School (uma empresa de currículo americana) uma breve lista das habilidades a serem desenvolvidas por crianças no jardim de infância, o que corresponde às idades de 4 a 6 anos. Uma lista como esta ajudará os pais, principalmente os que optaram por educar em casa ou ainda não enviaram seus filhos para a escola, a identificarem os pontos fracos de seus filhos para que possam orientá-los. É importante ter sempre em conta que crianças se desenvolvem em ritmos diferentes e que podem não adquirir todas essas habilidades de uma só vez ou exatamente na mesma idade que um irmão ou outra criança. Eis abaixo a lista da Calvert School que traduzi para os leitores aqui do blog e coloquei em um arquivo no formato PDF para download e impressão.

Check-list de habilidades para crianças de 4 a 6 anos

 

Habilidades acadêmicas

  1. Você ou outras pessoas conseguem compreender seu filho(a) quando ele(a) fala?
  2. Consegue repetir uma sentença de seis a oito palavras?
  3. Presta atenção em uma história curta quando a lêem para ele(a)?
  4. Consegue recontar eventos simples de uma história que tenha escutado?
  5. Consegue dizer o significado de palavras simples como varrer, escovar, cavalo, etc.?
  6. Se forem mostrados quatro objetos, é capaz de contá-los?
  7. Pode lhe dizer o que está faltando se você desenhar a figura de uma pessoa sem uma perna ou braço, ou com o rosto sem os olhos ou nariz?
  8. Consegue dar nome a um triângulo, quadrado ou círculo quando os vê?
  9. Começou a reconhecer as letras?
  10. Mostra familiaridade com rimas quando escuta palavras que rimam?
  11. Compreende que palavras faladas correspondem a palavras escritas?
  12. Está começando a escrever algumas letras do alfabeto ou mostrar interesse em escrever seu nome?
  13. Consegue identificar cores básicas: vermelha, verde, azul, amarela?
  14. Compreende o conceito de palavras como dentro, fora, em cima, embaixo?

Habilidades motoras

  1. Consegue traçar ou desenhar uma linha?
  2. Está começando a cortar com tesoura sem ponta?
  3. Consegue vestir-se sozinho: fechar o zíper ou abotoar o casaco, calçar as meias e sapatos?
  4. Está começando a segurar gizes e lápis corretamente?
  5. É capaz de correr, pular e caminhar em linha reta?
  6. Utiliza os talheres corretamente?
  7. Consegue agarrar uma bola de tamanho médio?
  8. Consegue completar um quebra-cabeça de cinco a dez peças?
  9. Consegue desenhar e colorir uma figura sem rabiscar?
  10. Consegue desenhar ou copiar um quadrado?

Habilidades sociais

  1. Termina uma tarefa antes de começar outra?
  2. Consegue seguir um passo-a-passo simples de duas etapas?
  3. Expressa sentimentos e necessidades com palavras?
  4. Faz perguntas sobre coisas ao redor de si?
  5. Está começando a esperar sua vez para fazer as coisas?
  6. Usa palavras ao invés de se expressar fisicamente quando nervoso?

Consciência de informações pessoais

  1. Sabe seu o nome completo?
  2. Sabe sua idade?
  3. Sabe seu endereço e número de telefone?
  4. Sabe os primeiros nomes de seu pai e de sua mãe?

Não tenhamos o ar de dar a entender a uma criança que ela poderia estar mentindo. Evitemos, pois, qualquer advertência como esta: “Sobretudo, não mintas”; digamos de preferência: “Estou certo de que dirás a verdade.” Acrescentar que ela é capaz de mentir é fazer germinar na sua alma inocente a idéia da possibilidade da mentira.

(…)

Se nos apercebemos de que uma criança não disse a verdade, é bom não tachá-la apressadamente de mentirosa. Evitemos uma generalização precipitada que a enraizaria na falta. Consideremos a falta como um erro de óptica e digamos à criança: “Bem sei que és um menino franco e não queres enganar-me; mas, talvez te enganaste a ti mesmo. Na próxima vez tem cuidado de não falar antes de te certificares do que vais dizer.

A Arte de Educar as Crianças de Hoje – Pe. G. Courtois

Menino escrevendo sobre cadernoArtigo de João Batista Araújo e Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto, onde ele expõe o embuste que é a adoção nas escolas das cartilhas de alfabetização aprovadas pelo MEC. Só mesmo no Brasil um equívoco como este pode continuar persistindo, a despeito das inúmeras pesquisas que comprovam a superioridade do método fônico de alfabetização.

O título deste artigo reproduz o de um livro publicado em 1953 e que provocou intenso debate sobre métodos de alfabetização. A polêmica durou até o final do século, quando o assunto foi definitivamente resolvido. No resto do mundo, não no Brasil. Uma análise das 19 cartilhas de alfabetização aprovadas pelo Ministério da Educação (MEC) em 2009, e que estão em uso na maioria das escolas públicas, revela a razão. Neste artigo, comentamos apenas alguns aspectos dessa análise.

Comecemos pela bibliografia citada pelos autores. Bibliografia reflete as orientações usadas. Dentre as 265 referências bibliográficas citadas nas 19 cartilhas, apenas cinco se referem a estudos especificamente voltados para os aspectos centrais da alfabetização, isto é, o funcionamento do código alfabético. Nas cinco, dois autores são os mais citados. Trata-se dos mesmos que o MEC vem mencionando desde que os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) entronizaram as ideias ultrapassadas e equivocadas que continuam desorientando os professores em todo o País. Cabe notar que, nessas 265 citações, não há referência alguma a nenhum dos artigos mais citados nos índices de publicações científicas internacionais sobre alfabetização ou nos documentos oficiais dos demais países que utilizam o código alfabético.

Em matéria de pedagogia, não é só o MEC que está na contramão dos progressos da ciência: alguns governos estaduais e municipais, que continuam produzindo suas próprias cartilhas, o fazem com base nos mesmos pressupostos equivocados.

Outro aspecto da análise se refere ao descumprimento sistemático dos termos de referência do edital do Programa Nacional do Livro Didático. Por insistência pessoal do ministro Fernando Haddad, que enfrentou ruidosas resistências internas e externas, o edital introduziu dois requisitos: a apresentação adequada dos fonemas e grafemas – base de qualquer processo de alfabetização – e atividades próprias para desenvolver fluência de leitura. Esses dois requisitos não foram observados de forma minimamente adequada em nenhuma das cartilhas aprovadas. O prejuízo pedagógico é óbvio. Cabe ao Tribunal de Contas da União (TCU) decidir se isso constitui delito de improbidade administrativa por parte de quem deu e de quem aceitou os pareceres sobre essas cartilhas.

Cartilhas elaboradas com base em pressupostos equivocados não ajudam as crianças a aprender a ler e escrever. Mas qual é, de fato, o objetivo das cartilhas aprovadas? De acordo com seus autores, o importante é promover o letramento, os usos sociais da língua, a intertextualidade, as múltiplas linguagens, a produção textual e outros pomposos desideratos. O domínio do código alfabético que se dane! Ou que se danem os alunos, como atestam os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e as pesquisas sobre a capacidade de leitura dos brasileiros.

Na prática, o que acontece com as cartilhas é o mesmo que ocorre com os livros didáticos, especialmente os de Língua Portuguesa – um samba do crioulo doido. Nas primeiras páginas das cartilhas, por exemplo, o aluno é convidado a escolher quais palavras do texto (que ele não sabe ler) indicam frutas. Ou é convidado a “escrever do seu jeito” o nome das ilustrações. Ou a combinar sílabas, cuja leitura não lhe foi ensinada, para formar palavras. Ou a identificar, “usando pistas contextuais”, qual de três frases completa um texto. Ou seja, tudo se passa como se a criança fosse um novo Champolion desafiado a decifrar a Pedra de Roseta. Ou a “formular hipóteses” sobre o valor fonológico dos grafemas. Se as pessoas fossem capazes de formular hipóteses pela mera exposição aos textos, como explicar a existência de analfabetos adultos numa sociedade urbana e letrada?

Nos países desenvolvidos, a questão dos métodos de alfabetização deixou de ser alvo de debates há pelo menos duas décadas, graças aos avanços das neurociências e às contundentes evidências a respeito da superioridade dos métodos fônicos. Os últimos redutos de resistência nos Estados Unidos acabam de ruir com a edição das novas orientações curriculares, nas últimas semanas.

Eis o que diz um dos mais importantes neurocientistas da atualidade, Stanislas Dehaene, na sua obra Os Neurônios da Leitura: “A conversão grafema-fonema é uma invenção única na história da escrita, que transforma radicalmente o cérebro da criança e sua maneira de ouvir os sons da língua. Ela não se manifesta espontaneamente, portanto, é preciso ensinar.” Quanto à forma de ensinar, a ciência experimental demonstra que para alfabetizar bem é necessário apresentar os fonemas e grafemas de forma sequencial, intencional e sistemática. Essa é a função das cartilhas. O tema foi inclusive objeto de relatório e recomendações recentes da Academia Brasileira de Ciências, mas continua ignorado pelo establishment educacional.

Ignorar os avanços da neurociência e as evidências experimentais acumuladas sobre métodos de alfabetização não significa apenas defender uma posição ideológica a respeito da alfabetização: significa rejeitar a ideia de que a ciência pode contribuir para melhorar o ensino. Ou seja, pedagogia, como bruxaria, dispensa a ciência. Valem apenas as crenças e o poder de pressão das corporações. E é isso que fazem as universidades, no Brasil, e as autoridades responsáveis pela educação na maioria de nossas redes de ensino.

Não sabemos o que o TCU e o MEC farão para correr atrás do prejuízo. Mas sabemos quais são os resultados dessa política: no 5.º ano do ensino fundamental, metade das crianças não consegue entender o que lê. E agora sabemos por que Joãozinho não aprende a ler, no Brasil.

Publicado originalmente em O Estado de S. Paulo em 15 de junho de 2010.