Informações para pais e educadores
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mão colhendo frutosA árvore já está na semente: o trabalho do educador é o mesmo do agricultor que prepara o terreno, afasta as influências nocivas, protege os ramos ou os poda segundo a necessidade, para ao cabo colhêr o melhor fruto.

Aplique as leis da psicologia pedagógica:

- para amortecer uma tendência má, satisfaça e favoreça a contrária;

- faça esquecer o que não deseja lembrado;

- lembre-se de que um instinto alimentado cobra energia redobrada – para alimentar o que deseja conservar e matar de inanição as inclinações vociosas.

Com isto se multiplicam as facilidades da educação, como sem isto se aumentam as dificuldades e os fracassos.

Importa, porém, conhecer cada educando, para lhe discernir as tendências, estimulando as boas, que é a melhor maneira de combater as más. Disse-o Pio XI na magistral encíclica sôbre a educação: “É preciso, desde a mais tenra idade, corrigir as inclinações desregradas da criança, e desenvolver e disciplinar as boas”.

A educação dos filhos – Mons. Álvaro Negromonte

Prima Ballerina-Edgar Degas

Prima Ballerina, Edgar Degas, 1876

Há cerca de dois meses comprei o livro de poesias Ou Isto ou Aquilo, de Cecília Meireles, por indicação do professor Carlos Nadalim, do excelente blog Como Educar Seus Filhos. Mas antes mesmo de adquirir o livro eu já vinha escutando um áudio com as poesias lindamente declamadas, a fim de conhecê-las e memorizá-las. Me deparei então com o poema “A Bailarina” e percebi que consegui memorizá-lo após ter escutado apenas duas ou três vezes, ao contrário dos outros, que até hoje não consegui decorar! Me veio então à tona o fato há muito esquecido de que foi este poema, “A Bailarina”, que, aos 10 anos, escolhi para memorizar para declamar em sala de aula em uma apresentação de Português ou Literatura. Este fato exemplifica muito bem o poder de memorização (tema recorrente aqui no blog!) de uma criança e sua importância também para a educação do imaginário, de que tão bem nos fala o professor Francisco Escorsim. Quisera eu ter decorado mais um monte de lindas poesias, lido literatura de qualidade e escutado boa música quando criança!

Quem nunca reparou que quando a criança gosta de algo, por exemplo, um desenho animado, uma música, ela faz repetir dezenas e dezenas e dezenas de vezes seguidas, e depois ainda fica cantarolando, repetindo falas, imitando etc.? Por quê, para quê? E como não cansa, não enjoa?

Dão-se aí três ações: contemplar, decorar e recordar. Não por acaso as palavras decorar e recordar têm a mesma raiz etimológica, vêm do latim cordis, coração. Ou seja, decorar é guardar no coração, recordar é trazer algo dele. Mas o que se guarda no coração senão o que se ama? Francisco Escorsim

Eis a poesia tal como está no livro:

a-bailarina

Para conhecer melhor o trabalho que o professor Carlos Nadalim vem fazendo com o blog Como Educar Seus Filhos, cadastre-se em sua lista exclusiva, onde você irá receber preciosas dicas práticas sobre o que realmente é eficaz em educação e poderá aplicá-las com seus filhos. Através desta lista você também ficará informado sobre os cursos que o professor está preparando e ministrando, como o “Ensine seus filhos a ler de forma eficaz“, cujas inscrições infelizmente já estão encerradas (mas que, felizmente, estou participando!).

Sobre a importância da educação da imaginação o professor Francisco Escorsim explica muitíssimo bem em seu site pessoal. Não deixem de ouvir também a entrevista que ele concedeu à Camila e ao Gustavo Abadie no programa Encontrando Alegria, na Radio Vox.

Este post estava dentre os rascunhos a serem publicados já há alguns dias. Ainda bem que não o publiquei antes, pois o professor Carlos Nadalim acabou de lançar um novo vídeo onde justamente indica o livro Ou Isto ou Aquilo! Imperdível! Com a licença do professor, eis abaixo o vídeo. Os demais podem ser acessados no canal do Como Educar Seus Filhos no YouTube!

Tradições de Natal

22 de dezembro de 2013 | Publicado por Mariana em Desenvolvimento infantil - (0 Comentário)

Pintura Silent Night

Publiquei certa vez aqui no blog um post sobre rotinas e rituais familiares, citando um artigo que havia lido no Journal of Family Psychology. Lá, mencionei a importância que o simbolismo e o significado afetivo dos rituais tem para promover a união familiar e o senso de pertencimento nas crianças. O Natal está aí! Eis uma grande oportunidade para uma família cristã se empenhar criando e colocando em prática os rituais que a preparam para a vinda do Menino Jesus. São esses rituais que ficarão guardados nas memórias de nossos filhos, ajudando a dar-lhes o conhecimento e o sentimento do real sentido do Natal: o de nos abrirmos para a graça de Deus. Há inúmeros rituais que podem ser adotados por uma família cristã durante o tempo do Advento e no dia de Natal. Está certo, este post está muito atrasado. Mas quem sabe as sugestões não ficam para o ano que vem?

- Durante o Advento, ir montando em família um quebra-cabeça com tema natalino.

- Montar um presépio paulatinamente: primeiro os pastores e os animais, depois chegam Maria e José, no Natal é colocado o Menino Jesus e, no dia 6 de janeiro, chegam os três reis magos.

- Comemorar o dia de São Nicolau (6 de dezembro): ler a história do santo para as crianças, presenteá-las com moedas de chocolate (São Nicolau jogou anonimamente sacos com moedas de ouro na casa de um homem pobre para que suas três filhas tivessem um dote e não precisassem se prostituir). Mais sobre a história de São Nicolau e Papai Noel: “Sobre São Nicolau (e o Natal)”.

- Fazer as novenas do Natal e do Perdão em família.

- Colocar para tocar músicas de Natal e aprender a cantá-las com as crianças. No blog Domestica Ecclesia foram publicadas recentemente várias sugestões, todas disponíveis no YouTube.

- Incentivar as crianças a fazerem uma boa ação ou penitência: cada boa ação ou penitência deve corresponder a mais um pouco de palha no presépio ou uma sementinha em um pote que são ofertados como presentes ao Menino Jesus.

- Durante o Advento ir montando aos poucos a Árvore de Natal, que é símbolo da vida. Intensificar a decoração na última semana do Advento.

Criança montando árvore de Natal

 -Fazer com as crianças um presépio de papel que elas possam colorir, cortar e montar. Veja um passo a passo de como fazer um presépio de feltro.

- Montar uma Coroa do Advento, acender as velas a cada domingo do Advento e fazer uma oração em família.

- E, por último, participar da Santa Missa de Natal e preparar, com a Confissão prévia, para receber Cristo na Comunhão.

Cada família pode planejar a forma que mais lhe convém para realizar as atividades durante o Advento e celebrar o Natal. Vejam só o exemplo de uma família brasileira e de uma família americana. Bons rituais ficam guardados em nossas memórias e sempre nos lembramos deles com carinho. E assim vamos usando esses rituais como auxílio para formar nossas crianças religiosamente e espiritualmente.

Faz tempo que não posto por aqui, mas não poderia deixar de divulgar a palestra do Carlos Nadalim, cujo excelente trabalho com as crianças da sua escola, Mundo do Balão Mágico, já mencionei aqui no blog. Será neste próximo sábado, em Curitiba. Quem estiver por lá não pode perder!

Informações sobre a palestra do Carlos Nadalim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aproveito para compartilhar mais um vídeo dos alunos desta escola, desta vez recitando Camões:

 

Terceira e última parte do capítulo 10 do livro “Amusing Ourselves to Death”, de Neil Postman. Ele aponta os problemas que surgem quando a televisão passa a ser tida como meio para o aprendizado, através dos programas “educativos”. Segundo Postman, “a principal contribuição da televisão para a filosofia da educação é a idéia de que o ensino e o entretenimento são inseparáveis”. Leia também a primeira parte e a segunda parte do texto.

Tradução: Leandro Diniz

Podemos começar a pensar sobre o que “The Voyage of the Mimi” significa ao recordar de que a idéia é tudo menos original. O que aqui é referido como uma “integração de três mídias” ou uma “apresentação multimídia” já foi chamado de “ajudas audiovisuais”, usadas pelos professores por anos, usualmente para o modesto propósito de reforçar o interesse dos estudantes no currículo. Além disso, muitos anos atrás, o Serviço de Educação (como o Departamento era então chamado) forneceu fundos ao WNET para um projeto planejado similarmente e chamado “Watch your mouth [Olha sua boca]“, uma série de dramatizações televisivas nas quais jovens propensos ao mal uso da língua inglesa atrapalhavam-se em uma variedade de problemas sociais. Linguistas e educadores prepararam as lições para os professores utilizarem conjuntamente a cada programa. As dramatizações eram convincentes – embora nem de longe tão boas quanto “Welcome Back, Kotter”, que tinha a vantagem indiscutível do carisma de John Travolta –, mas não houve nenhuma evidência de que os estudantes de quem era exigido ver “Watch your mouth” aumentaram sua competência no uso da língua inglesa. De fato, desde que não existe uma falta de inglês deformado nos comerciais televisivos diários, poderia-se se perguntar naquele tempo o porquê do governo dos Estados Unidos ter que pagar alguém para o trabalhoso processo de produzir inépcias adicionais como fonte para o estudo na sala de aula. Uma gravação de qualquer programa de David Susskind proveria um professor de inglês com aberrações linguísticas suficientes e dignas de análise para preencher um semestre.

Todavia, o Departamento de Educação seguiu em frente, aparentemente na crença de que amplas evidências – para citar Ms. Richards novamente – “mostram que o aprendizado aumenta quando a informação é apresentada num contexto dramático, e a televisão pode fazer isso melhor do que qualquer outro meio.” A resposta mais caridosa a essa afirmação é que ela está enganada. George Comstock e seus associados revisaram 2,800 estudos sobre o tópico geral da influência da televisão no comportamento, incluindo o processamento cognitivo, e foi incapaz de apontar evidências persuasivas de que “o aprendizado aumenta quando a informação é apresentada num contexto dramático”. De fato, em estudos conduzidos por Cohen e Salomon; Meringoff; Jacoby, Hoyer e Sheluga; Sahuffer, Frost e Rybolt; Stern; Wilson; Neuman; Katz, Adoni e Parness; e Gunter, a conclusão completamente oposta é justificada. Jacoby et al. encontrou, por exemplo, que somente 3.5 porcento dos espectadores foram capazes de responder com sucesso vinte perguntas verdadeiro/falso relacionadas a dois segmentos de trinta segundos de programas e anúncios da televisão comercial. Stauffer et al. encontrou ao estudar as respostas dos estudantes a um programa de notícias transmitido via televisão, rádio e impressão, que o impresso aumenta significativamente as respostas corretas às questões relativas aos nomes das pessoas e números contidos no material. Stern notou que 51 porcento dos espectadores não conseguiam lembrar um único item das notícias poucos minutos depois de assistir um programa de notícias na televisão. Wilson encontrou que o espectador mediano de televisão consegue reter apenas 20% da informação contida em uma notícia de ficção televisiva. Katz et al. encontrou que 21 porcento dos espectadores de televisão não podem lembrar de qualquer item das notícias depois de uma hora da transmissão. Com base do seu e outros estudos Salomon concluiu que “os significados mantidos pela televisão são mais prováveis de serem segmentados, concretos e menos inferenciais, e aqueles mantidos pela leitura têm maior probabilidade de serem melhor amarrados ao conhecimento possuído por alguém e, então, são mais prováveis se serem inferenciais.” Em outras palavras, até onde vai o entendimento de muitos estudos respeitáveis, assistir televisão não aumenta significantemente o aprendizado, é inferior e menos provável de cultivar o pensamento inferencial e de alta ordem do que a leitura.

Mas alguém pode não dar muito crédito para a retórica daqueles que recebem fundos. Nós estamos todos inclinados a transformar nossas esperanças em tênues reivindicações quando um projeto importante está em jogo. Além disso, não tenho dúvidas que Ms. Richards pode nos conduzir a muitos estudos que emprestam suporte ao seu entusiasmo. O ponto é que se você quer dinheiro para o propósito redundante de colocar as crianças para assistirem mais televisão do que elas já assistem – e dramatizar sobre isso – você tem que intensificar a retórica a níveis hercúleos.

O que é de maior significância sobre “The Voyage of Mimi” é que o conteúdo selecionado foi obviamente escolhido porque é eminentemente televisionável. Porque esses estudantes estão estudando o comportamento das baleias jubarte? Quão importante é isto, que os “temas acadêmicos” de navegação e a habilidade de ler mapas devem ser aprendidos? Habilidades de navegação nunca foram consideradas um “tema acadêmico” e de fato parece singularmente inapropriado para a maior parte dos estudantes de grandes cidades. Por que foi decido que “baleias e seu ambiente” é um assunto convincente de tal interesse que merece um ano inteiro de trabalho sobre ele?

Eu sugeriria que “The Voyage of the Mimi” foi concebido por alguém que fez a seguinte pergunta, “o que é bom na televisão?”, e não, “o que é bom na educação?” A televisão é boa para dramatizações, naufrágios, aventuras marítimas, capitães marítimos mal-humorados, e físicos sendo entrevistados por atores famosos. E que, é claro, é o que nós temos em “The Voyage of the Mimi”. O fato de que esta aventura em episódios é acompanhada por livros ricamente ilustrados e jogos de computador somente sublinha que a apresentação televisiva controla o currículo. Os livros cujas figuras os estudantes irão explorar e os jogos de computadores que os estudantes irão jogar são orientados pelo conteúdo dos programas de televisão, e não o contrário. Livros, afigura-se, se tornaram agora uma ajuda audiovisual; o principal contador do conteúdo da educação é o programa de televisão, e sua principal reivindicação para um lugar de destaque no currículo é que ele entretém. É claro, uma produção televisiva pode ser usada para estimular o interesse nas aulas, ou mesmo como o ponto focal da aula. Mas o que acontece aqui é que o conteúdo do currículo escolar está sendo determinado pelas características da televisão, e ainda pior, essas características aparentemente não estão incluídas como parte do que é estudado. Alguém teria pensado que a sala de aula é o lugar adequado para os estudantes perguntarem sobre os caminhos nos quais as mídias de todos os tipos – incluindo a televisão – moldam as atitudes das pessoas e suas percepções. Desde que nossos estudantes terão de assistir aproximadamente dezesseis mil horas de televisão até saírem da escola, as questões deveriam ter surgido, mesmo nas mentes dos oficiais do Departamento de Educação, sobre quem ensinará nossos estudantes como olhar para a televisão, e quando não o fazer, e com quais equipamentos críticos o fazer. O projeto “The Voyage of Mimi” ignora essas questões; de fato, espera que seus estudantes irão se inserir nas dramatizações com o mesmo estado de espírito de quando veem “St. Elsewhere” ou “Hill Street Blues”. (Alguém pode também assumir que o que é chamado de “alfabetização digital” não envolve o levantamento de perguntas sobre os vieses cognitivos e efeitos sociais do computador, que, eu arriscaria, são as mais importantes questões que chamam a atenção sobre as novas tecnologias.)

“The voyage of the Mimi”, em outras palavras, gastou $3.65 milhões com o propósito de utilizar a mídia exatamente da maneira que os empresários da mídia querem que eles a usem, negligente e invisivelmente, como se as próprias mídias não tivessem uma agenda epistemológica e política.

E, no final, o que os estudantes terão aprendido? Eles, para certificar, terão aprendido algo sobre baleias, talvez sobre navegação e leitura de mapas, e muito disso eles poderiam ter aprendido tão bem da mesma maneira por outros meios. Principalmente, eles terão aprendido que aprender é uma forma de entretenimento ou, mais precisamente, que algo digno de aprender pode ter a forma de um entretenimento, e deve assim ser. E eles não vão se revoltar se o professor de inglês os convidar para aprender as oito partes do discurso através do intermédio do rock. Ou se seu professor de estudos sociais cantar para eles os fatos sobre a Guerra de 1812. Ou se o de física vier até eles com biscoitos e camisetas. De fato, eles vão esperar isso e, então, estarão bem preparados para aceitar seus políticos, sua religião, suas notícias e seus negócios da mesma maneira deliciosa.

Segunda parte do capítulo 10 do livro “Amusing Ourselves to Death”, de Neil Postman. Ele aponta os problemas que surgem quando a televisão passa a ser tida como meio para o aprendizado, através dos programas “educativos”. Segundo Postman, “a principal contribuição da televisão para a filosofia da educação é a idéia de que o ensino e o entretenimento são inseparáveis”. Leia também a primeira parte do texto.

Tradução: Leandro Diniz

Tendo devotado previamente um livro, Teaching as a Conservative Activity [Ensino como uma atividade conservadora], a um exame detalhado da natureza antagonista dos dois currículos – da televisão e da escola – eu não vou sobrecarregar o leitor ou eu mesmo com uma repetição daquela análise. Mas eu gostaria de relembrar dois pontos que eu sinto não ter expressado com a devida força naquele livro, e que acaba por ser central a este. Eu me refiro, primeiramente, ao fato de que a principal contribuição da televisão para a filosofia da educação é a idéia de que o ensino e o entretenimento são inseparáveis. Esta concepção inteiramente original não é encontrada em nenhum discurso sobre educação, de Confúcio a Platão a Cícero a Locke a John Dewey. Ao procurar literatura sobre educação, você achará dito por alguns que as crianças aprenderão melhor quando elas estão interessadas no que a elas é ensinado. Vai achar dito – Platão e Dewey enfatizam isso – que a razão é melhor cultivada quando está enraizada em terreno emocional robusto. Vai até mesmo achar alguns que dizem ser o aprendizado melhor facilitado por um professor benigno e amoroso. Mas ninguém nunca disse ou deixou implícito que o aprendizado significante é efetiva e verdadeiramente alcançado de maneira duradoura quando a educação é entretenimento.

Filósofos da educação têm assumido que tornar-se aculturado é difícil por que isto necessariamente envolve a imposição de restrições. Eles argumentaram que deve existir uma sequência no aprendizado, que a perseverança e uma certa medida de transpiração são indispensáveis, que os prazeres individuais devem ser freqüentemente submetidos aos interesses da coesão do grupo, e que o aprendizado para ser crítico e para pensar conceitualmente e com rigor não vem com facilidade aos jovens, mas são vitórias depois de difíceis lutas. De fato, Cícero sublinhou que o propósito da educação é libertar o estudante da tirania do presente, o que não pode ser prazeroso para aqueles, como os jovens, que estão lutando duramente para fazer o oposto – isto é, acomodar-se ao presente.

A televisão oferece uma deliciosa e, como eu disse, original alternativa a tudo isso. Podemos dizer que existem três mandamentos que formam a filosofia da educação que a televisão oferece. A influência desses mandamentos é observável em todos os tipos de programas televisivos – desde “Vila Sésamo” aos documentários de “Nova” e do “The National Geographic” à “Ilha da Fantasia”, à MTV. Os mandamentos são os que seguem:

Tu não deverás ter nenhum pré-requisito

Todo programa de televisão deve ser um pacote completo em si mesmo. Nenhum conhecimento prévio deve ser exigido. Não deve existir nem mesmo um indício de que o aprendizado é hierárquico, de que é um edifício construído sobre uma fundação. O aprendiz deve ser autorizado a entrar em qualquer ponto sem prejuízo. Isto é por que você nunca ouvirá ou verá um programa de televisão começar com o aviso de que se o espectador não viu o programa anterior, o presente será sem sentido. A televisão é um currículo sem grades e não exclui nenhum espectador por motivo algum, em nenhum tempo. Em outras palavras, abolindo a idéia de sequenciamento e continuidade na educação, a televisão enfraquece a idéia de que sequência e continuidade tem algo a ver com o próprio pensamento.

Tu não deverás induzir à perplexidade

No ensino televisivo, a perplexidade é uma auto estrada para baixas audiências. Um aprendiz perplexo é um aprendiz que mudará para outro canal. Isso significa que não deve existir nada que haja de ser lembrado, estudado, aplicado ou, o pior de tudo, suportado. É assumido que qualquer informação, história ou idéia pode ser imediatamente acessível, desde que o contentamento do aprendiz, e não o seu crescimento, seja supremo.

Tu deverás evitar exposições como as dez pragas caídas sobre o Egito

De todos os inimigos do ensino televisivo, incluindo a continuidade e perplexidade, nenhum é mais formidável que a exposição. Argumentos, hipóteses, discussões, razões, refutações ou quaisquer dos instrumentos tradicionais do discurso racional transformam a televisão em rádio ou, pior, material impresso de terceira qualidade. Então, o ensino televisivo sempre toma a forma de contar histórias, conduzida através de imagens dinâmicas e apoiada por música. Isto é característico tanto de “Jornada nas Estrelas” quanto de “Cosmos,” de “Minha família é uma bagunça [Nickelodeon]“, de “Vila Sésamo,” de comerciais, de “Nova”. Nada será ensinado na televisão que não possa ser igualmente visualizado e colocado em contexto cênico.

O nome que podemos adequadamente dar a uma educação sem pré-requisitos, perplexidade e exposição é entretenimento. E quando alguém considera que salvo o sono não existe nenhuma atividade que ocupe mais o tempo da juventude da América do que assistir televisão, não podemos evitar a conclusão de que uma reorientação gigantesca em relação ao aprendizado está acontecendo.

O que leva ao segundo ponto que quero enfatizar: as conseqüências dessa reorientação estão para serem observadas não somente no declínio da potência das salas de aula, mas, paradoxalmente, em remodelar a sala de aula em um lugar onde tanto o ensino quanto aprendizado são planejados para ser atividades amplamente divertidas.

Eu já me referi ao experimento na Filadélfia no qual a sala de aula é reconstituída como um show de rock. Mas esse é, somente, o exemplo mais tolo de uma tentativa de definir a educação como um modo de entretenimento. Os professores, desde o primário até a universidade, estão aumentando a estimulação visual de suas lições; estão reduzindo a quantidade de exposição com a qual seus alunos têm que lidar; estão confiando menos nas tarefas de leitura e escrita; e estão relutantemente concluindo que o principal meio pelo qual o interesse do estudante pode ser mantido é o entretenimento. Sem nenhuma dificuldade eu posso preencher as próximas páginas desse capítulo com exemplos de esforços de professores – em alguns níveis, inconscientes – para fazer de suas salas de aula programas de televisão de segunda categoria. Mas vou encerrar o meu argumento com “The Voyage of the Mimi” [A Viagem do Mimi], que pode ser tomado como uma síntese, se não uma apoteose, da Nova Educação. “The Voyage of the Mimi” é o nome de um caro projeto científico e matemático que ajuntou algumas das mais prestigiosas instituições no campo da educação – o Departamento de Educação dos Estados Unidos, o Bank Street College of Education, o Public Broadcasting System-PBS [Sistema de Transmissão Pública] e a editora Holt, Rinehart and Winston. O projeto foi possibilitado por uma ajuda de $3,65 milhões do Departamento de Educação, que está sempre alerta para colocar seu dinheiro onde está o futuro. E o futuro é “The Voyage of the Mimi”. Para descrever o projeto sucintamente, eu cito quatro parágrafos do New York Times de 7 de agosto de 1984:

“Organizado em torno de uma série de televisão de vinte e seis episódios que retrata as aventuras de um laboratório flutuante de pesquisas sobre baleias, [o projeto] combina assistir televisão com livros ricamente ilustrados e jogos de computador que simulam o modo com que cientistas e navegadores trabalham… “The Voyage of the Mimi” é feito de programas de televisão de quinze minutos que retratam as aventuras de quatro jovens que acompanham dois cientistas e um capitão marítimo mal-humorado em uma jornada para monitorar o comportamento das baleias jubarte ao lago da costa do Maine. A tripulação do arrastão de atum adaptado navega o barco, rastreia as baleias e luta para sobreviver em uma ilha desabitada depois que uma tempestade danifica o casco do navio… Cada episódio teatral é, então, seguido de um documentário de quinze minutos sobre os temas relacionados. Um de tais documentários envolveu a visita de um dos atores adolescentes a Ted Taylor, um físico nuclear em Greenport, L.I., quem planejou uma maneira de purificar água do mar através do seu congelamento. Os programas de televisão, os quais os professores estão livres para gravar e utilizar a sua conveniência, são suplementados por uma série de livros e exercícios no computador que trabalham com quatro temas acadêmicos que emergem naturalmente do argumento da história: habilidades em mapas e navegação, baleias e seu ambiente, sistemas ecológicos e instrução em computadores.”

Os programas de televisão foram transmitidos através da PBS; os livros e programas de computador foram dados pela Holt, Rinehart and Winston; os especialistas em educação pela faculdade do Bank Street College. Então, “The Voyage of the Mimi” não é para ser desprezado. Como Frank Withrow do Departamento de Educação ressaltou, “Consideramos [o projeto] o carro chefe do que nós fazemos. É um modelo que outros começarão a seguir.” Todo mundo envolvido no projeto está entusiasmado, e extraordinários clamores de seus benefícios vêm seguidamente deles. Janice Trebbi Richards da Holt, Rinehart and Winston afirma, “As pesquisas mostram que o aprendizado aumenta quando a informação é apresentada num contexto dramático, e a televisão pode fazer isso melhor do que qualquer outro meio.” Oficiais do Departamento de Educação afirmam que o recurso de integrar três mídias – televisão, imprensa e computadores – repousa no seu potencial para cultivar habilidades de pensamentos de alta ordem. E Mr. Withrow é citado ao dizer que projetos como “The Voyage of the Mimi” pode significar grandes economias financeiras, que a longo prazo “é mais barato do que qualquer outra coisa que fazemos”. Mr. Withrow também sugeriu que existem muitas maneiras de financiar tais projetos. “Com ‘Vila Sésamo’”, ele disse, “levou cinco ou seis anos, mas eventualmente você pode ter retorno com camisetas e potes de biscoitos.”

(Continua)