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Terceira e última parte do capítulo 10 do livro “Amusing Ourselves to Death”, de Neil Postman. Ele aponta os problemas que surgem quando a televisão passa a ser tida como meio para o aprendizado, através dos programas “educativos”. Segundo Postman, “a principal contribuição da televisão para a filosofia da educação é a idéia de que o ensino e o entretenimento são inseparáveis”. Leia também a primeira parte e a segunda parte do texto.

Tradução: Leandro Diniz

Podemos começar a pensar sobre o que “The Voyage of the Mimi” significa ao recordar de que a idéia é tudo menos original. O que aqui é referido como uma “integração de três mídias” ou uma “apresentação multimídia” já foi chamado de “ajudas audiovisuais”, usadas pelos professores por anos, usualmente para o modesto propósito de reforçar o interesse dos estudantes no currículo. Além disso, muitos anos atrás, o Serviço de Educação (como o Departamento era então chamado) forneceu fundos ao WNET para um projeto planejado similarmente e chamado “Watch your mouth [Olha sua boca]“, uma série de dramatizações televisivas nas quais jovens propensos ao mal uso da língua inglesa atrapalhavam-se em uma variedade de problemas sociais. Linguistas e educadores prepararam as lições para os professores utilizarem conjuntamente a cada programa. As dramatizações eram convincentes – embora nem de longe tão boas quanto “Welcome Back, Kotter”, que tinha a vantagem indiscutível do carisma de John Travolta –, mas não houve nenhuma evidência de que os estudantes de quem era exigido ver “Watch your mouth” aumentaram sua competência no uso da língua inglesa. De fato, desde que não existe uma falta de inglês deformado nos comerciais televisivos diários, poderia-se se perguntar naquele tempo o porquê do governo dos Estados Unidos ter que pagar alguém para o trabalhoso processo de produzir inépcias adicionais como fonte para o estudo na sala de aula. Uma gravação de qualquer programa de David Susskind proveria um professor de inglês com aberrações linguísticas suficientes e dignas de análise para preencher um semestre.

Todavia, o Departamento de Educação seguiu em frente, aparentemente na crença de que amplas evidências – para citar Ms. Richards novamente – “mostram que o aprendizado aumenta quando a informação é apresentada num contexto dramático, e a televisão pode fazer isso melhor do que qualquer outro meio.” A resposta mais caridosa a essa afirmação é que ela está enganada. George Comstock e seus associados revisaram 2,800 estudos sobre o tópico geral da influência da televisão no comportamento, incluindo o processamento cognitivo, e foi incapaz de apontar evidências persuasivas de que “o aprendizado aumenta quando a informação é apresentada num contexto dramático”. De fato, em estudos conduzidos por Cohen e Salomon; Meringoff; Jacoby, Hoyer e Sheluga; Sahuffer, Frost e Rybolt; Stern; Wilson; Neuman; Katz, Adoni e Parness; e Gunter, a conclusão completamente oposta é justificada. Jacoby et al. encontrou, por exemplo, que somente 3.5 porcento dos espectadores foram capazes de responder com sucesso vinte perguntas verdadeiro/falso relacionadas a dois segmentos de trinta segundos de programas e anúncios da televisão comercial. Stauffer et al. encontrou ao estudar as respostas dos estudantes a um programa de notícias transmitido via televisão, rádio e impressão, que o impresso aumenta significativamente as respostas corretas às questões relativas aos nomes das pessoas e números contidos no material. Stern notou que 51 porcento dos espectadores não conseguiam lembrar um único item das notícias poucos minutos depois de assistir um programa de notícias na televisão. Wilson encontrou que o espectador mediano de televisão consegue reter apenas 20% da informação contida em uma notícia de ficção televisiva. Katz et al. encontrou que 21 porcento dos espectadores de televisão não podem lembrar de qualquer item das notícias depois de uma hora da transmissão. Com base do seu e outros estudos Salomon concluiu que “os significados mantidos pela televisão são mais prováveis de serem segmentados, concretos e menos inferenciais, e aqueles mantidos pela leitura têm maior probabilidade de serem melhor amarrados ao conhecimento possuído por alguém e, então, são mais prováveis se serem inferenciais.” Em outras palavras, até onde vai o entendimento de muitos estudos respeitáveis, assistir televisão não aumenta significantemente o aprendizado, é inferior e menos provável de cultivar o pensamento inferencial e de alta ordem do que a leitura.

Mas alguém pode não dar muito crédito para a retórica daqueles que recebem fundos. Nós estamos todos inclinados a transformar nossas esperanças em tênues reivindicações quando um projeto importante está em jogo. Além disso, não tenho dúvidas que Ms. Richards pode nos conduzir a muitos estudos que emprestam suporte ao seu entusiasmo. O ponto é que se você quer dinheiro para o propósito redundante de colocar as crianças para assistirem mais televisão do que elas já assistem – e dramatizar sobre isso – você tem que intensificar a retórica a níveis hercúleos.

O que é de maior significância sobre “The Voyage of Mimi” é que o conteúdo selecionado foi obviamente escolhido porque é eminentemente televisionável. Porque esses estudantes estão estudando o comportamento das baleias jubarte? Quão importante é isto, que os “temas acadêmicos” de navegação e a habilidade de ler mapas devem ser aprendidos? Habilidades de navegação nunca foram consideradas um “tema acadêmico” e de fato parece singularmente inapropriado para a maior parte dos estudantes de grandes cidades. Por que foi decido que “baleias e seu ambiente” é um assunto convincente de tal interesse que merece um ano inteiro de trabalho sobre ele?

Eu sugeriria que “The Voyage of the Mimi” foi concebido por alguém que fez a seguinte pergunta, “o que é bom na televisão?”, e não, “o que é bom na educação?” A televisão é boa para dramatizações, naufrágios, aventuras marítimas, capitães marítimos mal-humorados, e físicos sendo entrevistados por atores famosos. E que, é claro, é o que nós temos em “The Voyage of the Mimi”. O fato de que esta aventura em episódios é acompanhada por livros ricamente ilustrados e jogos de computador somente sublinha que a apresentação televisiva controla o currículo. Os livros cujas figuras os estudantes irão explorar e os jogos de computadores que os estudantes irão jogar são orientados pelo conteúdo dos programas de televisão, e não o contrário. Livros, afigura-se, se tornaram agora uma ajuda audiovisual; o principal contador do conteúdo da educação é o programa de televisão, e sua principal reivindicação para um lugar de destaque no currículo é que ele entretém. É claro, uma produção televisiva pode ser usada para estimular o interesse nas aulas, ou mesmo como o ponto focal da aula. Mas o que acontece aqui é que o conteúdo do currículo escolar está sendo determinado pelas características da televisão, e ainda pior, essas características aparentemente não estão incluídas como parte do que é estudado. Alguém teria pensado que a sala de aula é o lugar adequado para os estudantes perguntarem sobre os caminhos nos quais as mídias de todos os tipos – incluindo a televisão – moldam as atitudes das pessoas e suas percepções. Desde que nossos estudantes terão de assistir aproximadamente dezesseis mil horas de televisão até saírem da escola, as questões deveriam ter surgido, mesmo nas mentes dos oficiais do Departamento de Educação, sobre quem ensinará nossos estudantes como olhar para a televisão, e quando não o fazer, e com quais equipamentos críticos o fazer. O projeto “The Voyage of Mimi” ignora essas questões; de fato, espera que seus estudantes irão se inserir nas dramatizações com o mesmo estado de espírito de quando veem “St. Elsewhere” ou “Hill Street Blues”. (Alguém pode também assumir que o que é chamado de “alfabetização digital” não envolve o levantamento de perguntas sobre os vieses cognitivos e efeitos sociais do computador, que, eu arriscaria, são as mais importantes questões que chamam a atenção sobre as novas tecnologias.)

“The voyage of the Mimi”, em outras palavras, gastou $3.65 milhões com o propósito de utilizar a mídia exatamente da maneira que os empresários da mídia querem que eles a usem, negligente e invisivelmente, como se as próprias mídias não tivessem uma agenda epistemológica e política.

E, no final, o que os estudantes terão aprendido? Eles, para certificar, terão aprendido algo sobre baleias, talvez sobre navegação e leitura de mapas, e muito disso eles poderiam ter aprendido tão bem da mesma maneira por outros meios. Principalmente, eles terão aprendido que aprender é uma forma de entretenimento ou, mais precisamente, que algo digno de aprender pode ter a forma de um entretenimento, e deve assim ser. E eles não vão se revoltar se o professor de inglês os convidar para aprender as oito partes do discurso através do intermédio do rock. Ou se seu professor de estudos sociais cantar para eles os fatos sobre a Guerra de 1812. Ou se o de física vier até eles com biscoitos e camisetas. De fato, eles vão esperar isso e, então, estarão bem preparados para aceitar seus políticos, sua religião, suas notícias e seus negócios da mesma maneira deliciosa.

Segunda parte do capítulo 10 do livro “Amusing Ourselves to Death”, de Neil Postman. Ele aponta os problemas que surgem quando a televisão passa a ser tida como meio para o aprendizado, através dos programas “educativos”. Segundo Postman, “a principal contribuição da televisão para a filosofia da educação é a idéia de que o ensino e o entretenimento são inseparáveis”. Leia também a primeira parte do texto.

Tradução: Leandro Diniz

Tendo devotado previamente um livro, Teaching as a Conservative Activity [Ensino como uma atividade conservadora], a um exame detalhado da natureza antagonista dos dois currículos – da televisão e da escola – eu não vou sobrecarregar o leitor ou eu mesmo com uma repetição daquela análise. Mas eu gostaria de relembrar dois pontos que eu sinto não ter expressado com a devida força naquele livro, e que acaba por ser central a este. Eu me refiro, primeiramente, ao fato de que a principal contribuição da televisão para a filosofia da educação é a idéia de que o ensino e o entretenimento são inseparáveis. Esta concepção inteiramente original não é encontrada em nenhum discurso sobre educação, de Confúcio a Platão a Cícero a Locke a John Dewey. Ao procurar literatura sobre educação, você achará dito por alguns que as crianças aprenderão melhor quando elas estão interessadas no que a elas é ensinado. Vai achar dito – Platão e Dewey enfatizam isso – que a razão é melhor cultivada quando está enraizada em terreno emocional robusto. Vai até mesmo achar alguns que dizem ser o aprendizado melhor facilitado por um professor benigno e amoroso. Mas ninguém nunca disse ou deixou implícito que o aprendizado significante é efetiva e verdadeiramente alcançado de maneira duradoura quando a educação é entretenimento.

Filósofos da educação têm assumido que tornar-se aculturado é difícil por que isto necessariamente envolve a imposição de restrições. Eles argumentaram que deve existir uma sequência no aprendizado, que a perseverança e uma certa medida de transpiração são indispensáveis, que os prazeres individuais devem ser freqüentemente submetidos aos interesses da coesão do grupo, e que o aprendizado para ser crítico e para pensar conceitualmente e com rigor não vem com facilidade aos jovens, mas são vitórias depois de difíceis lutas. De fato, Cícero sublinhou que o propósito da educação é libertar o estudante da tirania do presente, o que não pode ser prazeroso para aqueles, como os jovens, que estão lutando duramente para fazer o oposto – isto é, acomodar-se ao presente.

A televisão oferece uma deliciosa e, como eu disse, original alternativa a tudo isso. Podemos dizer que existem três mandamentos que formam a filosofia da educação que a televisão oferece. A influência desses mandamentos é observável em todos os tipos de programas televisivos – desde “Vila Sésamo” aos documentários de “Nova” e do “The National Geographic” à “Ilha da Fantasia”, à MTV. Os mandamentos são os que seguem:

Tu não deverás ter nenhum pré-requisito

Todo programa de televisão deve ser um pacote completo em si mesmo. Nenhum conhecimento prévio deve ser exigido. Não deve existir nem mesmo um indício de que o aprendizado é hierárquico, de que é um edifício construído sobre uma fundação. O aprendiz deve ser autorizado a entrar em qualquer ponto sem prejuízo. Isto é por que você nunca ouvirá ou verá um programa de televisão começar com o aviso de que se o espectador não viu o programa anterior, o presente será sem sentido. A televisão é um currículo sem grades e não exclui nenhum espectador por motivo algum, em nenhum tempo. Em outras palavras, abolindo a idéia de sequenciamento e continuidade na educação, a televisão enfraquece a idéia de que sequência e continuidade tem algo a ver com o próprio pensamento.

Tu não deverás induzir à perplexidade

No ensino televisivo, a perplexidade é uma auto estrada para baixas audiências. Um aprendiz perplexo é um aprendiz que mudará para outro canal. Isso significa que não deve existir nada que haja de ser lembrado, estudado, aplicado ou, o pior de tudo, suportado. É assumido que qualquer informação, história ou idéia pode ser imediatamente acessível, desde que o contentamento do aprendiz, e não o seu crescimento, seja supremo.

Tu deverás evitar exposições como as dez pragas caídas sobre o Egito

De todos os inimigos do ensino televisivo, incluindo a continuidade e perplexidade, nenhum é mais formidável que a exposição. Argumentos, hipóteses, discussões, razões, refutações ou quaisquer dos instrumentos tradicionais do discurso racional transformam a televisão em rádio ou, pior, material impresso de terceira qualidade. Então, o ensino televisivo sempre toma a forma de contar histórias, conduzida através de imagens dinâmicas e apoiada por música. Isto é característico tanto de “Jornada nas Estrelas” quanto de “Cosmos,” de “Minha família é uma bagunça [Nickelodeon]“, de “Vila Sésamo,” de comerciais, de “Nova”. Nada será ensinado na televisão que não possa ser igualmente visualizado e colocado em contexto cênico.

O nome que podemos adequadamente dar a uma educação sem pré-requisitos, perplexidade e exposição é entretenimento. E quando alguém considera que salvo o sono não existe nenhuma atividade que ocupe mais o tempo da juventude da América do que assistir televisão, não podemos evitar a conclusão de que uma reorientação gigantesca em relação ao aprendizado está acontecendo.

O que leva ao segundo ponto que quero enfatizar: as conseqüências dessa reorientação estão para serem observadas não somente no declínio da potência das salas de aula, mas, paradoxalmente, em remodelar a sala de aula em um lugar onde tanto o ensino quanto aprendizado são planejados para ser atividades amplamente divertidas.

Eu já me referi ao experimento na Filadélfia no qual a sala de aula é reconstituída como um show de rock. Mas esse é, somente, o exemplo mais tolo de uma tentativa de definir a educação como um modo de entretenimento. Os professores, desde o primário até a universidade, estão aumentando a estimulação visual de suas lições; estão reduzindo a quantidade de exposição com a qual seus alunos têm que lidar; estão confiando menos nas tarefas de leitura e escrita; e estão relutantemente concluindo que o principal meio pelo qual o interesse do estudante pode ser mantido é o entretenimento. Sem nenhuma dificuldade eu posso preencher as próximas páginas desse capítulo com exemplos de esforços de professores – em alguns níveis, inconscientes – para fazer de suas salas de aula programas de televisão de segunda categoria. Mas vou encerrar o meu argumento com “The Voyage of the Mimi” [A Viagem do Mimi], que pode ser tomado como uma síntese, se não uma apoteose, da Nova Educação. “The Voyage of the Mimi” é o nome de um caro projeto científico e matemático que ajuntou algumas das mais prestigiosas instituições no campo da educação – o Departamento de Educação dos Estados Unidos, o Bank Street College of Education, o Public Broadcasting System-PBS [Sistema de Transmissão Pública] e a editora Holt, Rinehart and Winston. O projeto foi possibilitado por uma ajuda de $3,65 milhões do Departamento de Educação, que está sempre alerta para colocar seu dinheiro onde está o futuro. E o futuro é “The Voyage of the Mimi”. Para descrever o projeto sucintamente, eu cito quatro parágrafos do New York Times de 7 de agosto de 1984:

“Organizado em torno de uma série de televisão de vinte e seis episódios que retrata as aventuras de um laboratório flutuante de pesquisas sobre baleias, [o projeto] combina assistir televisão com livros ricamente ilustrados e jogos de computador que simulam o modo com que cientistas e navegadores trabalham… “The Voyage of the Mimi” é feito de programas de televisão de quinze minutos que retratam as aventuras de quatro jovens que acompanham dois cientistas e um capitão marítimo mal-humorado em uma jornada para monitorar o comportamento das baleias jubarte ao lago da costa do Maine. A tripulação do arrastão de atum adaptado navega o barco, rastreia as baleias e luta para sobreviver em uma ilha desabitada depois que uma tempestade danifica o casco do navio… Cada episódio teatral é, então, seguido de um documentário de quinze minutos sobre os temas relacionados. Um de tais documentários envolveu a visita de um dos atores adolescentes a Ted Taylor, um físico nuclear em Greenport, L.I., quem planejou uma maneira de purificar água do mar através do seu congelamento. Os programas de televisão, os quais os professores estão livres para gravar e utilizar a sua conveniência, são suplementados por uma série de livros e exercícios no computador que trabalham com quatro temas acadêmicos que emergem naturalmente do argumento da história: habilidades em mapas e navegação, baleias e seu ambiente, sistemas ecológicos e instrução em computadores.”

Os programas de televisão foram transmitidos através da PBS; os livros e programas de computador foram dados pela Holt, Rinehart and Winston; os especialistas em educação pela faculdade do Bank Street College. Então, “The Voyage of the Mimi” não é para ser desprezado. Como Frank Withrow do Departamento de Educação ressaltou, “Consideramos [o projeto] o carro chefe do que nós fazemos. É um modelo que outros começarão a seguir.” Todo mundo envolvido no projeto está entusiasmado, e extraordinários clamores de seus benefícios vêm seguidamente deles. Janice Trebbi Richards da Holt, Rinehart and Winston afirma, “As pesquisas mostram que o aprendizado aumenta quando a informação é apresentada num contexto dramático, e a televisão pode fazer isso melhor do que qualquer outro meio.” Oficiais do Departamento de Educação afirmam que o recurso de integrar três mídias – televisão, imprensa e computadores – repousa no seu potencial para cultivar habilidades de pensamentos de alta ordem. E Mr. Withrow é citado ao dizer que projetos como “The Voyage of the Mimi” pode significar grandes economias financeiras, que a longo prazo “é mais barato do que qualquer outra coisa que fazemos”. Mr. Withrow também sugeriu que existem muitas maneiras de financiar tais projetos. “Com ‘Vila Sésamo’”, ele disse, “levou cinco ou seis anos, mas eventualmente você pode ter retorno com camisetas e potes de biscoitos.”

(Continua)

Este post traz a tradução da primeira parte do capítulo 10 do livro “Amusing Ourselves to Death”, de Neil Postman. Ele aponta os problemas que surgem quando a televisão passa a ser tida como meio para o aprendizado, através dos programas “educativos”. Segundo Postman, “a principal contribuição da televisão para a filosofia da educação é a idéia de que o ensino e o entretenimento são inseparáveis”.

Bebê assistindo televisão

Tradução: Leandro Diniz

Não poderia haver uma aposta mais segura, quando começou em 1969, de que “Vila Sésamo” seria abraçada pelas crianças, pais e educadores. As crianças o amaram, pois foram educadas com comerciais de televisão, os quais elas intuitivamente sabiam que eram os entretenimentos mais cuidadosamente criados na televisão. Para aquelas que ainda não tinham estado nas escolas, mesmo para aquelas que apenas haviam começado, a idéia de serem ensinadas por uma série de comerciais não parecia peculiar. E que a televisão as devia entreter foi tido como um assunto de fato.

Os pais abraçaram “Vila Sésamo” por diversas razões, entre elas a que diminuía sua culpa sobre o fato de que eles não podiam ou não restringiriam o acesso de suas crianças à televisão. “Vila Sésamo” apareceu para justificar as crianças de quatro ou cinco anos de idade ficarem sentadas transfixadas em frente à tela de uma tevê por períodos de tempo impensáveis. Os pais estavam ansiosos pela esperança de que a televisão pudesse ensinar a suas crianças algo além de qual cereal de café da manhã era o mais crocante. Ao mesmo tempo, “Vila Sésamo” os liberou da responsabilidade de ensinar às suas crianças em idade pré-escolar a ler – um assunto de importância em uma cultura onde as crianças estão aptas a serem consideradas um incômodo.

Eles também puderam ver claramente que apesar de suas falhas, “Vila Sésamo” era inteiramente consonante com o espírito que prevalecia na América. Seu uso de fantoches engraçados, celebridades, músicas cativantes, e edição rápida era certamente para dar prazer às crianças e, portanto, servia como uma preparação adequada para sua entrada em uma cultura do amor à diversão.

Quanto aos educadores, eles em geral também aprovaram “Vila Sésamo”. Contrário à opinião comum, eles estavam inclinados a achar os novos métodos agradáveis, especialmente quando estavam convencidos de que a educação pode ser alcançada mais eficientemente através das novas técnicas. (E é por isso que tais idéias como o “livro didático à prova de professor”, testes padronizados, e, agora, micro-computadores, têm sido bem vindos às salas de aula). “Villa Sésamo” pareceu ser uma ajuda imaginativa em resolver o problema crescente de ensinar aos americanos como ler, enquanto, ao mesmo tempo, encorajar as crianças a amarem a escola.

Sabemos agora que “Villa Sésamo” incentiva as crianças a amarem a escola somente se a escola se parecer com “Villa Sésamo”. Ou seja, sabemos agora que “Vila Sésamo” enfraquece o que a idéia tradicional de escola representa.

Enquanto a sala de aula é um local de interação social, o espaço defronte a televisão é uma reserva particular. Enquanto em uma sala de aula alguém pode fazer perguntas ao professor, não pode perguntar nada para uma tela de tevê. Enquanto a escola é centrada no desenvolvimento da linguagem, a televisão demanda atenção à imagens. Enquanto a freqüência à escola é um requerimento legal, assistir televisão é um ato de escolha. Enquanto na escola alguém falha em atender ao professor sob o risco de punição, não existem penalidades em se falhar em assistir à televisão. Enquanto o bom comportamento de alguém na escola significa observar regras de decoro público, assistir televisão não requer tais observâncias, não existe esse conceito de decoro público. Enquanto em uma classe a diversão nunca é mais que um meio para um fim, na televisão ela é o fim em si mesma.

Porém “Villa Sésamo” e seu descendente, “The Eletric Company”, não podem ser culpados por ridicularizar a clássica sala de aula. Se a sala de aula agora começa a parecer um ambiente velho e chato para aprender, podemos culpar os inventores da própria televisão, e não o Children’s Television Workshop. Não podemos esperar a preocupação com a finalidade de uma sala de aula daqueles que querem fazer bons shows para a televisão. Eles estão preocupados com a finalidade da televisão.

Isso não significa que “Vila Sésamo” não é educativa. Ela é, de fato, nada menos do que educativa – no sentido de que todo programa de televisão é educativo. Assim como ler um livro – qualquer tipo de livro – promove uma orientação particular em direção ao aprendizado, assistir um programa de televisão faz o mesmo. “The little house on the prairie”, “Cheers” e “The Tonight Show” são tão efetivos quanto “Vila Sésamo” ao promover o que pode ser chamado de estilo televisivo de aprendizado. E esse estilo de aprendizado é, por sua própria natureza, hostil ao que tem sido chamado de aprendizado por leitura ou seu aprendizado escolar pessoalmente assistido.

Se vamos culpar “Vila Sésamo” de algo, é por sua pretensão de ser uma aliada da sala de aula. Afinal de contas, isso tem sido o carro chefe para arrecadar fundos e dinheiro público. Como um programa de televisão, e um ótimo programa, “Vila Sésamo” não encoraja as crianças a amarem a escola ou qualquer coisa da escola. Ele as encoraja a amar a televisão.

Além disso, é importante adicionar que se “Vila Sésamo” ensina as crianças as letras e números ou não, é algo totalmente irrelevante. Podemos ter aqui como nosso guia as observações de John Dewey de que o conteúdo de uma lição é a última coisa, a menos importante, no aprendizado. Como ele escreveu em Experiência e Educação: “Talvez a maior falácia pedagógica de todas é a noção de que uma pessoa aprende somente o que ela está estudando no momento. O aprendizado colateral no caminho da formação de atitudes duradouras… pode ser, e geralmente é, mais importante do que a lição de ortografia ou uma lição de geografia ou história… Pois tais atitudes são o que fundamentalmente contam no futuro.”

Em outras palavras, a coisa mais importante que alguém aprende é sempre algo sobre como alguém aprende. Como Dewey escreveu em outro lugar, nós aprendemos o que fazemos. A televisão educa ao ensinar as crianças a fazer o que o ato de assistir televisão requer delas. E isso é precisamente distante do que uma sala de aula requer delas assim como ler um livro é de assistir a um programa de auditório.

Embora alguém não seja capaz de saber isso ao consultar as várias propostas de como endireitar o sistema de educação, este ponto – de que ler livros e assistir televisão diferem completamente no que eles implicam sobre o aprendizado – é hoje o problema educacional mais importante na América. América é, de fato, o caso exemplar ao evidenciar o que pode ser pensado como a terceira grande crise da educação Ocidental.

A primeira ocorreu no quinto século A.C., quando em Atenas teve lugar uma mudança de uma cultura oral para uma cultura de alfabeto e escrita. Para entender o que isso significou, devemos ler Platão. A segunda ocorreu no século dezesseis, quando na Europa aconteceu uma transformação radical como resultado da prensa móvel. Para entender o que isso significou, devemos ler John Locke. A terceira está ocorrendo agora, na América, como resultado da revolução eletrônica, particularmente a invenção da televisão. Para entender o que isso significa, devemos ler Marshall McLuhan.

Encaramos a rápida dissolução dos pressupostos de uma educação organizada ao redor do lento e em movimento mundo da impressão e a igualmente rápida emergência de uma nova educação, baseada na imagem eletrônica à velocidade da luz. A sala de aula ainda está, no momento, atada ao mundo da impressão, embora essa conexão esteja rapidamente enfraquecendo. Enquanto isso, a televisão avança, sem fazer concessões ao seu grande predecessor tecnológico, criando novas concepções do conhecimento e de como ele é obtido. Uma pessoa é inteiramente justificada em dizer que a maior iniciativa educacional que está agora sendo empreendida nos Estados Unidos não está acontecendo nas salas de aulas, mas nas casas, em frente às televisões, e sob a jurisdição não dos administradores das escolas e dos professores, mas dos executivos das cadeias de tevê e dos apresentadores.

Eu não quero dizer que a situação é um resultado de uma conspiração ou mesmo que aqueles que controlam a televisão assumem essa responsabilidade. Eu só quero dizer que, assim como o alfabeto ou a imprensa, a televisão tem pelo seu poder de controlar o tempo, atenção e hábitos cognitivos da nossa juventude, o poder de controlar a educação deles.

E é por isso, eu penso, que é adequado chamar a televisão de currículo. Como eu compreendo a palavra, um currículo é um sistema de informações especialmente estruturado, cujo propósito é influenciar, ensinar, treinar ou cultivar a mente e o caráter da juventude. A televisão, de fato, faz exatamente isso, e o faz incansavelmente. Fazendo assim ela compete, com sucesso, com o currículo escolar. Pelo que eu quero dizer, ela praticamente o elimina.

(Continua)

O hábito da leitura na infância

31 de janeiro de 2013 | Publicado por Mariana em Mensagem da Semana - (0 Comentário)

O hábito da leitura está despertando cedo. Os pequeninos ouvem as histórias que lhes são lidas. Analfabetos embora, conhecem os livros pelas ilustrações, folheiam-nos, convivem com êles. Aí começaremos a ensinar-lhes cuidado, respeito e amor aos livros.

Sabendo ler, lêem com prazer aquelas mesmas histórias que ouviram contar. Ou querem ler outras. Surge-nos a preocupação da escolha dos livros: escolha em todo sentido: moral, psicológico, artístico, etc. Pais cuidadosos nunca entregarão ao filho um livro que antes não leram. E farão da leitura infantil um instrumento de educação, sob qualquer dos seus numerosos ângulos.

A educação dos filhos – Mons. Álvaro Negromonte

Menino lendo

Abordando os vários estilos de aprendizagem

(Original no blog da Calvert School)

Tradução: Mariana Discacciati Pazzini

Como um homeschooler, você provavelmente já sabe que existem vários estilos de aprendizagem diferentes. Todas as pessoas têm seu método de aprendizagem preferido. Se você é novo no homeschooling ou adepto há mais tempo, uma breve revisão sobre os estilos de aprendizagem poderá ser benéfica.

Em Educação é consenso o reconhecimento de três estilos de aprendizagem distintos. São eles os estudantes visuais, os auditivos e os sinestésicos. Isso pode soar como rótulos extravagantes, mas são apenas maneiras diferentes de aprendizagem.

A maioria das pessoas trabalha melhor com um estilo de aprendizagem, mas poderá descobrir que pode se destacar em outras áreas. Isso faz com que seja importante abordar todos os estilos de aprendizagem com todos os estudantes, focando mais no estilo no qual eles se adaptam melhor. É também importante lembrar que seu filho pode não compartilhar o mesmo estilo de aprendizagem dominante que você.

Aluno visual

Alunos visuais aprendem através da visão. Aprendem através de leitura de texto, imagens, gráficos, diagramas, etc. Se seu filho é um aluno visual, você deve fornecer material de leitura, usar a linguagem corporal ao ensinar, e instruí-lo sobre como tomar notas. Use instruções escritas, ao invés de orais, e mantenha os ruídos de fundo reduzidos. Lembre-se que eles memorizam usando pistas visuais, portanto podem preferir escrever algo mesmo em tarefas orais. Alunos visuais tendem a recordar melhor as informações se eles as leem silenciosamente para si mesmos antes de lerem em voz alta ou discutirem. Pode ser benéfico fornecer ao aluno visual um resumo geral do material que será abrangido numa discussão ou leitura. Usar mapas conceituais também ajuda a criar conexões sobre o material.

Aluno auditivo

Essas são as crianças que irão se beneficiar lendo um texto em voz alta, ouvindo uma história gravada em áudio, ou participando de uma discussão. Para o seu aluno auditivo você deve considerar usar histórias online com áudio gravado, audiobooks, ou fazer um revezamento nas leituras em voz alta. Alunos auditivos funcionam bem com música instrumental tocando ao fundo enquanto estudam. Pode ser proveitoso para o seu aluno auditivo usar o dedo ou algo para apontar durante a leitura, a fim de evitar pular linhas. O aluno auditivo também se beneficia repetindo as instruções recebidas, realizando avaliações orais, e usando associação de palavras para relembrar um conteúdo.

Aluno sinestésico

Alunos sinestésicos aprendem melhor através de uma abordagem “mão na massa”. Eles aprendem movendo, tocando e fazendo. Se seu filho é um aluno sinestésico, você deve considerar aulas de campo, experimentos de laboratório, e usar técnicas de memorização que envolvam gestos. Alunos sinestésicos precisam trabalhar em curtos períodos de tempo e fazer pausas frequentes enquanto estiverem estudando. Eles tendem a precisar de espaço para ler ou escrever, como deitar no chão ou na cama, ao invés de se sentar em uma mesa. Alunos sinestésicos tendem a preferir livros que tragam orientações de ações/tarefas. Para encorajar seu aluno sinestésico, permita o uso de modelos, projetos, ou demonstrações, ao invés do tradicional relatório escrito.

Descobrir o estilo de aprendizagem do seu filho irá beneficiar não só ele, mas também você, o pai ou mãe que educa em casa. Ter esse conhecimento irá te ajudar a determinar qual o estilo de aprendizagem se enquadra melhor e como incorporar esse estilo no currículo Calvert do seu aluno. O mais importante, porém, é que saber como seu filho aprende irá promover nele confiança e uma vida de amor ao aprendizado.

Há algum tempo postei aqui no blog um vídeo com dicas da professora Margarita Noyes sobre como começar a ensinar Matemática para crianças bem novinhas (mais ou menos na época em que começam a andar). O vídeo abaixo é uma continuação desse primeiro: desta vez a Margarita dá preciosas dicas de como ensinar os principais conceitos matemáticos para crianças um pouco mais velhas, em idade pré-escolar (entre 4 e 6 anos). Assistam e vejam abaixo os links para os materiais e recursos indicados no vídeo.

Site do Math-U-See

Cuisenaire Rods: